sábado, 8 de fevereiro de 2014

INCITAÇÃO DA MENTE À CONTEMPLAÇÃO DE DEUS

INCITAÇÃO DA MENTE À CONTEMPLAÇÃO DE DEUS
Sto. Anselmo de Cantuária (1078)

Eia, vamos, pobre homem! Foge um pouco às tuas ocupações, esconde-te dos teus pensamentos tumultuados, afasta as tuas graves preocupações e deixa de lado as tuas trabalhosas inquietudes. Busca, por um momento, a Deus e descansa um pouco nele. Entra no esconderijo da tua mente, aparta-te de tudo, exceto de Deus e daquilo que pode levar-te a ele, e, fechada a porta, procura-o. Abre a ele todo o teu coração e dize-lhe: “Quero teu rosto; busco com ardor o teu rosto, ó Senhor” (Salmo 27.8).

Eis-me, ó Senhor meu Deus, ensina, agora, ao meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, na minha mente, se estás ausente, onde poderei encontrar-te? Senhor, se estás por toda parte, por que não te vejo aqui? Certamente habitas uma luz inacessível. Mas onde está essa luz inacessível? E como chegar a ela? Quem me levará até lá e me introduzirá nessa morada cheia de luz para que ali possa enxergar-te?

Nunca te vi, ó Senhor meu Deus. Senhor, eu não conheço o teu rosto. Que fará, ó Senhor, que fará este teu servo tão afastado de ti? Que fará este teu servo tão ansioso pelo teu amor e, no entanto, lançado tão longe de ti? Anela ver-te, mas teu rosto está demasiado longe dele. Deseja aproximar-te de ti, mas a tua habitação é inacessível. Arde pelo desejo de encontrar-te, e não sabe onde moras. Suspira só por ti, e não conhece o teu rosto. Ó Senhor, tu és o meu Deus e o meu Senhor, e nunca te vi. Tu me fizeste e resgataste, e tudo o que tenho de bom devo-o a ti; no entanto, não te conheço ainda. Fui criado para ver-te, e até agora não consegui aquilo para que fui criado.

(…) E tu, Senhor, até quando, até quando, ó Senhor, ficarás esquecido de nós? Até quando conservarás o teu rosto afastado de nós? Quando iluminarás os nossos olhos e nos mostrarás teu rosto? Quando voltarás a nós? Olha para nós, ó Senhor. Escuta-nos, ilumina os nossos olhos, mostra-te a nós. Volta para junto de nós, a fim de termos, novamente, a felicidade, pois, sem ti, só há dores para nós. Tem piedade de nossos sofrimentos e esforços para chegar a ti, pois, sem ti, nada podemos. Convida-nos, ajuda-nos, Senhor. Rogo-te que o meu desespero não destrua este meu suspirar por ti, mas respire dilatado meu coração na esperança. Rogo-te, ó Senhor, consoles o meu coração amargurado pela desolação. Suplico-te, ó Senhor, não me deixes insatisfeito após começar a tua procura com tanta fome de ti. Famélico, dirigi-me a ti: não permitas que volte em jejum. Pobre e miserável que sou, fui em busca do rico e misericordioso: não permitas que retorne sem nada, e decepcionado. E se suspiro antes de comer, faze com que eu tenha a comida após os suspiros.

Ó Senhor, encurvado como sou, nem posso ver senão a terra: ergue-me, pois, para que possa fixar com os olhos o alto. As minhas iniquidades elevaram-se por cima da minha cabeça, rodeiam-me por toda parte e me oprimem como um fardo pesado. Livra-me delas, alivia-me desse peso, para que eu não fique encerrado como num poço. Seja-me permitido enxergar a tua luz, embora de tão longe e desta profundidade. Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro. Pois, sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira, nem encontrar-te se não te mostrares. Que eu possa procurar-te desejando-te, e desejar-te ao procurar-te, e encontrar-te amando-te, e amar-te ao te encontrar.

Ó Senhor, reconheço e te rendo graças por teres criado em mim esta tua imagem, a fim de que, ao recordar-me de ti, eu pense em ti e te ame. Mas ela está tão apagada em minha mente por causa dos vícios, tão embaciada pela névoa dos pecados, que não consegue alcançar o fim para o qual a fizeste, a menos que tu a renoves e a reformes. Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade. De maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, se não cresse, não conseguiria compreender.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O que Jesus considerava carnalidade?



Texto extraído de : http://www.caiofabio.net/

''O ser totalmente carnal é, paradoxalmente, o ser totalmente inafetivo!''

Ora, se há um conceito de “carnalidade” expresso por Jesus, ele não aparece em relação a publicanos, meretrizes e pecadores, mas sim, diretamente vinculado aos religiosos de seus dias, e, entre esses, os mais “zelosos”: os fariseus e autoridades religiosas!

Para Jesus o homem carnal é, sobretudo, o religioso presunçoso e arrogante. É ele, o dono da verdade, aquele a quem o Senhor chama de “hipócrita”.

A maior carnalidade para Jesus é não se enxergar e, ainda assim, ser capaz de julgar o próximo. E pior: tentar “clona-lo”, fazendo-o, duas vezes pior do que nós!

O dialogo de Jesus com Nicodemos também nos mostra o que, do ponto de vista do Senhor, é um homem carnal— nascido apenas da carne—, sofrendo da carnal presunção de se sentir e se perceber—auto-enganadamente, é claro!—, como um mestre, um ser formado, acabado, e, a quem, Ele, Jesus, disse ser necessário nascer de novo.

O carnal não sabe que é carnal, afinal, ele se vê como um ser acima de tudo e todos, pois, em seu auto-engano, está “formado”. Esse é, segundo Jesus, um carnal que precisa urgentemente nascer da água e do Espírito e se deixar levar pelas incertezas do vento!

O culto à segurança pode ser uma terrível expressão de carnalidade, segundo Jesus!

Ora, pela Leitura dos evangelhos, não vemos Jesus associar a “carnalidade” aos banquetes, às festas, aos casamentos, às alegrias nas praças, aos erros humanos e, nem ainda , à infelicidade congênitas ou aos desastres.

Nem tampouco vemos Jesus chamar de carnalidade o cansaço, a irritação, a ira justa, ou mesmo a violência que nasce das respostas à sobrevivência. Para Ele, também, o mais carnal não é o que vai a guerra e mata, mas aquele que fica amaldiçoando invejosamente a benção da coragem concedida ao guerreiro, ainda que também se sirva e usufrua das libertações que ele consegue.

Carnal, no evangelho, não é a mulher que vem da noite escura e ilumina a sala com seu amor, lágrimas e beijos nos pés de Jesus. É o seu opositor cheio de justiça aquele a quem Jesus denuncia como carnal. Assim, para Jesus, o carnal não é, necessariamente, aquele que na busca de amar, equivocou-se, mas aquele que nunca amou por total impossibilidade ou medo de o fazer.

A maior carnalidade é não ser capaz de amar, ainda que equivocadamente; é a total falta de desejo de conhecer o amor.

O ser totalmente carnal é, paradoxalmente, o ser totalmente inafetivo!

O carnal, em Jesus, é o fariseu, o hipócrita, o presunçoso, o arrogante, o seguro de si, o ser certo de suas certezas!
Carnal é aquele que confia nos resultados de suas próprias produções legais, morais e religiosas!

Portanto, de acordo com os evangelhos, o carnal é aquele que não se enxerga, mas vive da presunção de pensar enxergar o próximo!

Além disso, para Jesus, o carnal também era o irmão incapaz de se alegrar com a alegria do Pai pelo retorno de um “outro irmão”—seu igual— que, tendo escolhido correr o risco de visitar “terras distantes”, voltava quebrado e humilhado ao seio da família, sem possuir mais fantasias que não fossem as reais alegrias da verdade.

Ora, esse Irmão Mais Velho, incapaz de entrar na festa, é o carnal, de acordo com Jesus. Afinal, é a festa que o Pai deu para celebrar a volta de Um de Seus Filhos— que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado! O Filho Zangado, o Irmão Mais Velho, apesar de todos os apelos paternos, não quis entrar e viver com o Pai a alegria de reencontrar o Irmão que, agora, felizmente, estava totalmente des-enganado.
Sim! é o Irmão Invejoso do pecado e do perdão que o Des-Enganado, o Pródigo, recebera do Pai, aquele a quem Jesus vê como sendo o carnal que nunca comeu a carne, de nenhum tipo, nem mesmo a carne de um cabrito, para se alegrar com seus amigos!

Carnal é um ser que se entristece com a manifestação da Graça e do perdão!

Carnal, para Jesus, era o devedor perdoado que não era capaz de perdoar algo infinitamente menor, no seu próximo.

Ou ainda aquele crente que jejuava duas vezes por semana, dava o dízimo de tudo, que orava muitas vezes ao dia, e que agradecia a Deus em alto e bom som a benção de não ser como o pecador que chorava culpado e aflito ao seu lado.

Ora, na mesma oração de ações de Graças, ele ainda louvava a Deus por nem sequer ser parecido com os demais homens que se assemelhavam àquele pária que chorava diante de Deus, sem nem mesmo ousar olhar para cima, ao seu lado. Sim! o auto-justificado, para Jesus, era o carnal!

Carnal também, para Jesus, era ser como os mal-humorados religiosos que encontravam razões exatamente iguais para reclamarem a Deus pela existência de seres tão santa e comportamentalmente díspares quanto João Batista e Jesus.

Ou, seja: aos olhos de Jesus mal-humor crônico contra as expressões da Graça de Deus que não sejam de nosso “gosto”, expressam também a nossa carnalidade.

E pior ainda, para Ele, carnalidade era não temer exercer controle, comercio e juízo no território consagrado a Deus pelos homens!

Para Jesus, mais carnal que a adultera era a assembléia que se reunia, com pedras nas mãos, com o orgástico intuito de apredeja-la.

Além disso, para Ele, pior do que ser carnal, era ser um carnal burro, insensato e desonestamente estúpido. Daí, o administrador infiel ser “elogiado” pela sua sabedoria de tentar fazer o melhor que pudesse com as conseqüências de seus erros irreversíveis.

Todavia, para Jesus, o pior carnal é aquele que não move as mãos, os pés, e não usa os sentidos e o coração para perceber a presença Dele no encontro com o próximo—indo da peste à cadeia; do hospital ao exílio; da inanição à inibição de ser um estrangeiro! Quem não vê na carência do próximo-inaproximável a presença da Graça de Cristo nele oculta, é o supremo carnal da História.

Sim! para Jesus o carnal é aquele que só vive o que pode bancar por si mesmo. Do contrário, prefere se proteger do risco de viver.

O conceito de Paulo sobre o tema da carnalidade não é diferente— e nem poderia ser— daquilo que Jesus ensina ser obra da carne.

Em Jesus, a carne, negativamente falando, é toda produção da arrogância humana, especialmente a presunção do juízo sobre o próximo e sua malfadada tentativa de se auto-justificar diante de Deus.

Isto é apenas para você começar a pensar!

Caio