terça-feira, 8 de abril de 2014

Bem Aventurados os Insaciáveis



Mateus 5:6; 6:25-34

O conceito humano de SANTIDADE relacionado ao mundo material faz com que se admire uma pessoa e sua espiritualidade tanto mais quanto essa tal pessoa possa viver em simplicidade, com muito pouco, ou quase nada; e, assim, nesse estado, viva contente.

Desse modo, quanto menos uma pessoa precise para viver, mais revela sua beleza e sua perfeição de consciência; e mais será admirada pelos homens. Assim, quanto MENOS prisão e desejo pelo que é material, MAIS liberdade e contentamento.

Mas esse mesmo princípio – o de desejar pouco, ou quase nada – não se aplica em relação a Deus. No que diz respeito a Deus a SANTIDADE é a sede, é a fome, é a necessidade, é busca, é o desejo de ter mais, de ser mais em Deus e para Deus... E que é fruto de se saber como um “MENOS”, como o menor, como o mais carente.

“Dos pecadores eu sou o principal”—dizia Paulo.

Portanto, quanto mais imperfeito for o homem para si mesmo, e quanto mais carente de Deus, tanto mais perfeito será o seu imperfeito caminhar.

Precisar de Deus não é vergonha. Alias nada eleva tanto um ser humano quanto sua pobreza espiritual, sua fome, sua necessidade.

Nada há mais horrível do que se ver alguém que passa pela vida sem sentir falta de Deus; sem achar que precisa Dele.

Afinal de contas, o que é o homem?

Jesus disse em Mateus capítulo seis que o homem não é um show cósmico de ornamentos. Lírios são externamente mais belos...

A vida do homem não consiste nos bens que possui, e nem sua beleza humana se manifesta como afirmação de pobreza como virtude.

O que torna um homem grande é sua pequenez; e, sobretudo, sua consciente carência de Deus!

Assim, paradoxalmente (como sempre!), o grande poder de um homem vem de sua total consciência de fraqueza.

Sim! O poder de um homem vem de sua total admissão de incapacidade quanto a realizar qualquer coisa.
Sim! O poder do homem vem dele dizer e crer que sem Deus nada se pode fazer.

Quando sei que não posso Nada, então, nada podendo, Deus pode por mim.

Desse modo, a virtude humana diante de Deus é o inverso de sua virtude diante dos homens; pois se entre os homens o santo é que não precisa de quase nada, e vive contente; todavia, diante de Deus, o homem que caminha em perfeição é justamente o que carece, o que quer mais, o que não se contenta; e tem sede...

Isto porque mesmo que alguém aprenda a se contentar materialmente com Nada, ou quase isso; no entanto, em Deus, e no espírito, ele só será coerente com seu próprio caminho de simplificação material, se, todavia, viver como alguém que pede, busca, bate, e confessa total carência.

Isto porque aquilo que é elevado diante dos homens, disse Jesus, é abominação diante de Deus; inclusive o show de simplicidade e virtuosismo material – pela simplificação dos desejos materiais, que de nada vale se o coração não viver sempre com fome, e almejando comer o Pão que está na mesa de Deus.

Caio


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terça-feira, 25 de março de 2014

O evangelho dos evangélicos. - Ed René Kivitz



TEXTO:

''Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.'' [Jesus Cristo]

Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.


O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo.

A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (i.é, um canudo de bic com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Lembro de assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja.

O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia.

E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa.

O evangelho dos evangélicos é estratificado. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso.

O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio.

O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância.

Em terceiro lugar, o evangelho dos evangélicos é mágico. Promove a infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação, e a acomodação em detrimento do trabalho.

Pra ser evangélico você não precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”.

Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura.

O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros.

Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé.

Em quarto lugar, o evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista. Peço licença para citar Frei Beto: “O fundamentalismo interpreta e aplica literalmente os textos religiosos, não sabe que a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensinamento religioso.” O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que o espírito fundamentalista se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas.

Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer.

Mais uma vez Frei Beto: “o fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência”. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, e, portanto, é burro e incoerente.

Em quinto lugar, o evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche. Não me iludo, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acredito que tenhamos muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. De vez em quando (isso faz parte da dimensão masoquista da minha personalidade) fico assistindo estes programas, e penso que é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção.

A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos.

A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos nossos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara.

Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.

Ed René Kivitz

sábado, 22 de março de 2014

Evangelizar ou Exteriorizar?

Não quero dar uma de chato, pois ja tem chato demais nesse mundo.

Mas talvez isso ajude você, se sua vontade for "evangelizar".
Concluo isso, porque me ajudou.

Quer evangelizar com eficiência?

Leia Mateus, Marcos, Lucas e João e simplesmente VIVA o que Jesus ensinou.
E por onde fores, haverá luz. E por onde andares e com quem falares, Jesus não estará sendo apenas "dito", mas mais do que isso, estará sendo mostrado!

Mais simples do que nunca neh ?
Não precisamos nos pintar de verde, pagar mico no nome de Jesus, ou estender uma bandeira exuberante com o nome do mestre pelas ruas.

Aliás, não é por que vejo a propaganda da Jequiti de 15 em 15 minutos no SBT que eu tenho vontade de comprar perfume. Mas confesso, quando sinto aquele cheirinho refrescante que alguém, perfuma o ambiente apenas caminhando por ele! Ai sim!

Não é mesmo?

Se sequer vivêssemos metade do que Jesus ensinou no sermão do monte, economizaríamos palavras.


Pense nisso com carinho! Abrç



Performasse X Espiritualidade

Performasse X Espiritualidade

Ele vem e nos diz que o grande segredo da vida é praticar a fé da maneira mais singela, simples, íntima, amorosa, profunda e discreta possível. Diante de Deus no secreto. E que as demais coisas são consequências dessa experiência de amor, como fruto dela, no todo da vida. Mas que nós não devemos por hipótese alguma manifestar isso como uma bandeira que se transforme numa cara, num gesto, numa interpretação, numa performasse. O que é algo que trabalha contra toda a nossa paganidade psicológica, que necessita ser VISTA, AFIRMADA, RECONHECIDA, APLAUDIDA, necessita que os outros digam "Esse sim é o melhor, é o melhor do que o outro. Este encontrou o caminho!" (CF)



Disse Jesus :
Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.

Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.

Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.

Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.

Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.

Mateus 6:1-6

sábado, 8 de fevereiro de 2014

INCITAÇÃO DA MENTE À CONTEMPLAÇÃO DE DEUS

INCITAÇÃO DA MENTE À CONTEMPLAÇÃO DE DEUS
Sto. Anselmo de Cantuária (1078)

Eia, vamos, pobre homem! Foge um pouco às tuas ocupações, esconde-te dos teus pensamentos tumultuados, afasta as tuas graves preocupações e deixa de lado as tuas trabalhosas inquietudes. Busca, por um momento, a Deus e descansa um pouco nele. Entra no esconderijo da tua mente, aparta-te de tudo, exceto de Deus e daquilo que pode levar-te a ele, e, fechada a porta, procura-o. Abre a ele todo o teu coração e dize-lhe: “Quero teu rosto; busco com ardor o teu rosto, ó Senhor” (Salmo 27.8).

Eis-me, ó Senhor meu Deus, ensina, agora, ao meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, na minha mente, se estás ausente, onde poderei encontrar-te? Senhor, se estás por toda parte, por que não te vejo aqui? Certamente habitas uma luz inacessível. Mas onde está essa luz inacessível? E como chegar a ela? Quem me levará até lá e me introduzirá nessa morada cheia de luz para que ali possa enxergar-te?

Nunca te vi, ó Senhor meu Deus. Senhor, eu não conheço o teu rosto. Que fará, ó Senhor, que fará este teu servo tão afastado de ti? Que fará este teu servo tão ansioso pelo teu amor e, no entanto, lançado tão longe de ti? Anela ver-te, mas teu rosto está demasiado longe dele. Deseja aproximar-te de ti, mas a tua habitação é inacessível. Arde pelo desejo de encontrar-te, e não sabe onde moras. Suspira só por ti, e não conhece o teu rosto. Ó Senhor, tu és o meu Deus e o meu Senhor, e nunca te vi. Tu me fizeste e resgataste, e tudo o que tenho de bom devo-o a ti; no entanto, não te conheço ainda. Fui criado para ver-te, e até agora não consegui aquilo para que fui criado.

(…) E tu, Senhor, até quando, até quando, ó Senhor, ficarás esquecido de nós? Até quando conservarás o teu rosto afastado de nós? Quando iluminarás os nossos olhos e nos mostrarás teu rosto? Quando voltarás a nós? Olha para nós, ó Senhor. Escuta-nos, ilumina os nossos olhos, mostra-te a nós. Volta para junto de nós, a fim de termos, novamente, a felicidade, pois, sem ti, só há dores para nós. Tem piedade de nossos sofrimentos e esforços para chegar a ti, pois, sem ti, nada podemos. Convida-nos, ajuda-nos, Senhor. Rogo-te que o meu desespero não destrua este meu suspirar por ti, mas respire dilatado meu coração na esperança. Rogo-te, ó Senhor, consoles o meu coração amargurado pela desolação. Suplico-te, ó Senhor, não me deixes insatisfeito após começar a tua procura com tanta fome de ti. Famélico, dirigi-me a ti: não permitas que volte em jejum. Pobre e miserável que sou, fui em busca do rico e misericordioso: não permitas que retorne sem nada, e decepcionado. E se suspiro antes de comer, faze com que eu tenha a comida após os suspiros.

Ó Senhor, encurvado como sou, nem posso ver senão a terra: ergue-me, pois, para que possa fixar com os olhos o alto. As minhas iniquidades elevaram-se por cima da minha cabeça, rodeiam-me por toda parte e me oprimem como um fardo pesado. Livra-me delas, alivia-me desse peso, para que eu não fique encerrado como num poço. Seja-me permitido enxergar a tua luz, embora de tão longe e desta profundidade. Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro. Pois, sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira, nem encontrar-te se não te mostrares. Que eu possa procurar-te desejando-te, e desejar-te ao procurar-te, e encontrar-te amando-te, e amar-te ao te encontrar.

Ó Senhor, reconheço e te rendo graças por teres criado em mim esta tua imagem, a fim de que, ao recordar-me de ti, eu pense em ti e te ame. Mas ela está tão apagada em minha mente por causa dos vícios, tão embaciada pela névoa dos pecados, que não consegue alcançar o fim para o qual a fizeste, a menos que tu a renoves e a reformes. Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade. De maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, se não cresse, não conseguiria compreender.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O que Jesus considerava carnalidade?



Texto extraído de : http://www.caiofabio.net/

''O ser totalmente carnal é, paradoxalmente, o ser totalmente inafetivo!''

Ora, se há um conceito de “carnalidade” expresso por Jesus, ele não aparece em relação a publicanos, meretrizes e pecadores, mas sim, diretamente vinculado aos religiosos de seus dias, e, entre esses, os mais “zelosos”: os fariseus e autoridades religiosas!

Para Jesus o homem carnal é, sobretudo, o religioso presunçoso e arrogante. É ele, o dono da verdade, aquele a quem o Senhor chama de “hipócrita”.

A maior carnalidade para Jesus é não se enxergar e, ainda assim, ser capaz de julgar o próximo. E pior: tentar “clona-lo”, fazendo-o, duas vezes pior do que nós!

O dialogo de Jesus com Nicodemos também nos mostra o que, do ponto de vista do Senhor, é um homem carnal— nascido apenas da carne—, sofrendo da carnal presunção de se sentir e se perceber—auto-enganadamente, é claro!—, como um mestre, um ser formado, acabado, e, a quem, Ele, Jesus, disse ser necessário nascer de novo.

O carnal não sabe que é carnal, afinal, ele se vê como um ser acima de tudo e todos, pois, em seu auto-engano, está “formado”. Esse é, segundo Jesus, um carnal que precisa urgentemente nascer da água e do Espírito e se deixar levar pelas incertezas do vento!

O culto à segurança pode ser uma terrível expressão de carnalidade, segundo Jesus!

Ora, pela Leitura dos evangelhos, não vemos Jesus associar a “carnalidade” aos banquetes, às festas, aos casamentos, às alegrias nas praças, aos erros humanos e, nem ainda , à infelicidade congênitas ou aos desastres.

Nem tampouco vemos Jesus chamar de carnalidade o cansaço, a irritação, a ira justa, ou mesmo a violência que nasce das respostas à sobrevivência. Para Ele, também, o mais carnal não é o que vai a guerra e mata, mas aquele que fica amaldiçoando invejosamente a benção da coragem concedida ao guerreiro, ainda que também se sirva e usufrua das libertações que ele consegue.

Carnal, no evangelho, não é a mulher que vem da noite escura e ilumina a sala com seu amor, lágrimas e beijos nos pés de Jesus. É o seu opositor cheio de justiça aquele a quem Jesus denuncia como carnal. Assim, para Jesus, o carnal não é, necessariamente, aquele que na busca de amar, equivocou-se, mas aquele que nunca amou por total impossibilidade ou medo de o fazer.

A maior carnalidade é não ser capaz de amar, ainda que equivocadamente; é a total falta de desejo de conhecer o amor.

O ser totalmente carnal é, paradoxalmente, o ser totalmente inafetivo!

O carnal, em Jesus, é o fariseu, o hipócrita, o presunçoso, o arrogante, o seguro de si, o ser certo de suas certezas!
Carnal é aquele que confia nos resultados de suas próprias produções legais, morais e religiosas!

Portanto, de acordo com os evangelhos, o carnal é aquele que não se enxerga, mas vive da presunção de pensar enxergar o próximo!

Além disso, para Jesus, o carnal também era o irmão incapaz de se alegrar com a alegria do Pai pelo retorno de um “outro irmão”—seu igual— que, tendo escolhido correr o risco de visitar “terras distantes”, voltava quebrado e humilhado ao seio da família, sem possuir mais fantasias que não fossem as reais alegrias da verdade.

Ora, esse Irmão Mais Velho, incapaz de entrar na festa, é o carnal, de acordo com Jesus. Afinal, é a festa que o Pai deu para celebrar a volta de Um de Seus Filhos— que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado! O Filho Zangado, o Irmão Mais Velho, apesar de todos os apelos paternos, não quis entrar e viver com o Pai a alegria de reencontrar o Irmão que, agora, felizmente, estava totalmente des-enganado.
Sim! é o Irmão Invejoso do pecado e do perdão que o Des-Enganado, o Pródigo, recebera do Pai, aquele a quem Jesus vê como sendo o carnal que nunca comeu a carne, de nenhum tipo, nem mesmo a carne de um cabrito, para se alegrar com seus amigos!

Carnal é um ser que se entristece com a manifestação da Graça e do perdão!

Carnal, para Jesus, era o devedor perdoado que não era capaz de perdoar algo infinitamente menor, no seu próximo.

Ou ainda aquele crente que jejuava duas vezes por semana, dava o dízimo de tudo, que orava muitas vezes ao dia, e que agradecia a Deus em alto e bom som a benção de não ser como o pecador que chorava culpado e aflito ao seu lado.

Ora, na mesma oração de ações de Graças, ele ainda louvava a Deus por nem sequer ser parecido com os demais homens que se assemelhavam àquele pária que chorava diante de Deus, sem nem mesmo ousar olhar para cima, ao seu lado. Sim! o auto-justificado, para Jesus, era o carnal!

Carnal também, para Jesus, era ser como os mal-humorados religiosos que encontravam razões exatamente iguais para reclamarem a Deus pela existência de seres tão santa e comportamentalmente díspares quanto João Batista e Jesus.

Ou, seja: aos olhos de Jesus mal-humor crônico contra as expressões da Graça de Deus que não sejam de nosso “gosto”, expressam também a nossa carnalidade.

E pior ainda, para Ele, carnalidade era não temer exercer controle, comercio e juízo no território consagrado a Deus pelos homens!

Para Jesus, mais carnal que a adultera era a assembléia que se reunia, com pedras nas mãos, com o orgástico intuito de apredeja-la.

Além disso, para Ele, pior do que ser carnal, era ser um carnal burro, insensato e desonestamente estúpido. Daí, o administrador infiel ser “elogiado” pela sua sabedoria de tentar fazer o melhor que pudesse com as conseqüências de seus erros irreversíveis.

Todavia, para Jesus, o pior carnal é aquele que não move as mãos, os pés, e não usa os sentidos e o coração para perceber a presença Dele no encontro com o próximo—indo da peste à cadeia; do hospital ao exílio; da inanição à inibição de ser um estrangeiro! Quem não vê na carência do próximo-inaproximável a presença da Graça de Cristo nele oculta, é o supremo carnal da História.

Sim! para Jesus o carnal é aquele que só vive o que pode bancar por si mesmo. Do contrário, prefere se proteger do risco de viver.

O conceito de Paulo sobre o tema da carnalidade não é diferente— e nem poderia ser— daquilo que Jesus ensina ser obra da carne.

Em Jesus, a carne, negativamente falando, é toda produção da arrogância humana, especialmente a presunção do juízo sobre o próximo e sua malfadada tentativa de se auto-justificar diante de Deus.

Isto é apenas para você começar a pensar!

Caio