terça-feira, 19 de abril de 2011

Reflexão de Cristo contra Cultura

OBS: Estou lendo um livro muito bom sobre Cristo e Cultura, e estou postando no blog algumas partes interessantes(Esta é a 3° parte). Esta parte que postei fala sobre o conceito de muitos crentes sobre a cultura, e sua origem. Com isso não estou dizendo que é o melhor a acreditar nas revoltas de Tertuliano mas este, por sua vez, tem como objetivo ponderar as idéias. 
Logo após irei postar o conceito correto a se seguir.

A primeira carta de João contém a apresentação menos ambígua deste ponto de

vista.
 Esta pequena obra clássica de devoção e teologia tem sido entesourada pelos cristãos devido à sua profunda compreensão e maravilhosa exposição da doutrina do amor. A contrapartida da lealdade a Cristo
e aos irmãos é a rejeição da sociedade cultural. Uma linha
clara de separação é traçada entre a fraternidade dos
filhos de Deus e o mundo. Com a exceção de dois casos, a palavra "mundo" significa evidentemente para o escritor desta carta o todo da sociedade fora da igreja, onde, entretanto, os crentes vivem.
A injunção aos cristãos é:
"Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”.
 Esse mundo aparece como um reino sob o poder do mal; é a região
das trevas na qual os cidadãos do reino da luz não devem penetrar; caracterizado a permanência nele de mentiras, ódio e assassínios; é ele o herdeiro de Caim.
 Trata-se de uma sociedade secular dominada pela "concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida", ou, como o Prof. Dodd traduz essas frases, ele é  a "sociedade pagã, com a sua sensualidade, superficialidade e pretensões, seu materialismo e seu egoísmo”.
 É uma cultura que está voltada para os valores temporais  e passageiros, enquanto Cristo tem palavras de vida eterna; é uma ordem a um tempo moribunda e assassina, pois "o mundo passa e com ele a sua concupiscência”.
 É ela moribunda, contudo, não somente porque está voltada para os bens temporais e porque contém as contradições internas de ódio e mentira, mas também porque Cristo velo para destruir as obras do diabo e porque a fé nele é a vitória que vence o mundo.


A posição "Cristo-contra-cultura" não está apresentada
aqui na sua forma mais radical. Embora o amor ao próximo
tenha sido interpretado como significando amor ao irmão -
isto é, ao companheiro crente - admite-se que Jesus Cristo
tenha vindo para expiar os pecados do mundo, o que
provavelmente significa, em I João, a expiação dos pecados
de todos os homens, considerados mais ou menos
individualmente. Embora não haja aqui nem uma declaração
de que o cristão seja obrigado a participar na obra das
instituições sociais, a sustentá-las ou convertê-las, não
há também nem uma expressa rejeição do Estado ou da
propriedade como tais. Sem dúvida o fim do "mundo" parecia
tão perto para o escritor, que ele não encontrou tempo
para dar conselhos quanto a estes pontos.

 A idéia comum a este tipo de
arrazoado do segundo século é a convicção de que os
Cristãos constituíam um Novo povo, uma terceira "raça"
além dos judeus e dos gentios. Assim escreve Clemente:
"Deus, que vê todas as coisas e que é o chefe de todos os
espíritos e o Senhor de toda carne …escolheu Nosso Senhor
Jesus Cristo e nos escolheu também, através dele, para
sermos um povo especial”. "I Como nos diz Harnack em seu
resumo das crenças desses primeiros cristãos, eles estavam
persuadidos de que “1) o nosso povo é mais velho do que o
mundo; 2) o mundo foi criado por causa de nós; 3) o mundo
continua existindo por nossa causa; 4) nós retardamos  o
julgamento do mundo; 5) tudo no mundo, o princípio,  o
curso e o fim da história nos está revelado e  é
transparente aos nossos olhos; 6) nós tomaremos parte no
julgamento do mundo e nós mesmos gozaremos a eterna bem aventurança”.

 A convicção fundamental, contudo, era  a
idéia de que esta nova sociedade, raça, ou povo, tinha
sido estabelecida por Jesus Cristo, o qual era o seu
legislador e Rei. O corolário de toda a concepção era o
pensamento de que quem não pertence à comunidade de Cristo
está sob o governo do mal. Isto veio a se expressar na
doutrina dos dois caminhos: "há dois caminhos: um da vida
e outro da morte, mas há uma grande diferença entre os dois”.

O caminho da vida
era o cristão. Ele era indicado pela narração dos
mandamentos da nova lei, tais como os mandamentos de amar
a Deus e ao próximo, a Regra de Ouro, os conselhos de amor
aos inimigos e de não resistência ao mal, sendo que
algumas injunções extraídas do Velho Testamento eram,
contudo, incluídas. O caminho da morte era descrito
simplesmente como o curso vicioso da vida, de modo que a
alternativa clara era ser um cristão ou um homem mau.

A Revolta de Tertuliano. (Puxa como ele era estressadinho! 
O maior e o mais explícito representante do tipo "Cristocontra-cultura" no Cristianismo dos primeiros tempos foi,
sem dúvida, à parte os escritores do Novo Testamento,
Tertuliano. Deve-se dizer sem delongas que ele não se
enquadra completamente dentro do nosso padrão hipotético,
mas demonstra traços que o relacionam com outras famílias
e tipos. Ele é um trinitariano que entende que o Deus que se revela em Jesus Cristo é o Criador e o Espírito também; mas dentro desse contexto ele
reafirma a absoluta autoridade de Jesus Cristo, "o supremo
Cabeça e Senhor da graça e disciplina (prometidas por
Deus), o iluminador e Instrutor da raça humana, o próprio

Filho de Deus”.

EM toda,s as questões
os cristãos se referem primariamente a Cristo "como  o
Poder de Deus e o Espírito de Deus, como a Palavra,  a
Razão, a Sabedoria e o Filho de Deus," e a confissão
cristã é: "Nós dizemos, e diante de todos os homens  o
dizemos, e dilacerados e enxangue(sic) debaixo de…
torturas, clamamos: ‘Nós adoramos a Deus através de
Cristo’”.

 Com esta concentração na Soberania de Jesus
Cristo, Tertuliano combina uma rigorosa moralidade de
obediência aos seus mandamentos, incluindo não apenas amor
aos irmãos mas aos inimigos, não resistência ao mal,
proibições de ira e de olhar cobiçoso. Como se pode ver
ele é um severo puritano em sua interpretação do que a fé
cristã ordena em matéria de comportamento.

Ele substitui
a ética positiva e cálida do amor que caracteriza  a
Primeira Carta de João por uma moralidade altamente negativa: fuga ao pecado e temeroso
preparo para o iminente dia do juízo parecem mais
importantes do que a grata aceitação da graça de Deus no
dom de seu Filho.

A rejeição por Tertuliano dos preceitos da cultura é,
da mesma forma, incisiva. O conflito do crente não é com a
natureza mas com a cultura, pois é especialmente na
cultura que o pecado reside. Tertuliano chega bem perto do
pensamento de que o pecado original é transmitido pela
sociedade, e que se não fossem os costumes viciosos que
cercam uma criança a partir do seu nascimento, e a sua
educação artificial, a sua alma permaneceria boa.  O
universo e a alma são naturalmente bons, pois Deus é quem
os faz, mas "nós não devemos considerar apenas por quem
todas as coisas foram feitas, mas também por quem elas têm
sido pervertidas", e que "há uma grande diferença entre o
estado corrompido e aquela pureza primeva”.
 O quanto de corrupção e civilização são coincidentes no pensamento de
Tertuliano é em parte indicado na reflexão de que Cristo
veio não para trazer "camponeses rústicos e selvagens…  à
civilização… ; mas como alguém que tencionava iluminar os
homens já civilizados, e debaixo da.s ilusões de sua
própria cultura, para que eles viessem ao conhecimento da
verdade”.
Tudo fica mais claro quando notamos quais são os
vícios que ele condena e qual é o mundanismo que o cristão
tem de desprezar. 

Tertuliano, é bem verdade,
rejeita a acusação de que os cristãos são "Inúteis nos que
fazeres da vida", pois ele diz: "nós residimos
temporariamente convosco no mundo, não desprezando nem
fórum, nem açougue, nem banho, nem taverna, nem o mercado
semanal, nem qualquer outro lugar de comércio”. E ele até
acrescenta: "Nós navegamos convosco, lutamos ao vosso lado
e carpimos convosco o solo; e por semelhante modo nos
unimos a vós em vosso tráfico - e até mesmo no campo de
muitas artes nós publicamos as nossas obras para o vosso
benefício.

 Isto, contudo, é dito como defesa. Quando ele
admoesta os crentes, seu conselho é para que eles se
retirem dos muitos encontros e muitas ocupações, não
somente porque estas coisas estão corrompidas por causa de
sua relação com a fé pagã, mas porque elas requerem um
modo de vida contrário ao espírito e à lei de Cristo.
Assim, a vida política deve ser evitada. "Como aqueles
em quem todo ardor de busca de honra e glória está morto",
escreve Tertuliano, ainda em defesa, "nada nos induz
prementemente a participar de vossas reuniões públicas nem
há algo mais inteiramente estranho para nós do que as
lides do Estado”. Há uma contradição intima entre  o
exercício do poder político e a fé cristã. O serviço
militar deve ser evitado porque envolve participação em
ritos religiosos pagãos e um juramento a César,  e
especialmente porque ele viola a lei de Cristo, que "ao
desarmar Pedro, desarmou a todo soldado”. Como "irá  o
filho da paz participar na batalha quando não lhe convém
nem mesmo instaurar processo legal?"

O comércio não pode ser proibido com igual rigor,
podendo até haver alguma justiça nesta prática, ainda que
ela seja só com muita restrição "adequada para um servo de
Deus", pois a não ser a cobiça, que é um tipo de
idolatria, não há motivo real para as aquisições.
Quando Tertuliano se volta para a filosofia e as artes
ele é até mais drástico do que o fora no caso da profissão
de soldado, na verberação de suas proibições. Ele não tem
nenhuma simpatia para com os esforços de alguns cristãos
do seu tempo de assinalar conexões positivas entre a sua
fé e as idéias dos filósofos gregos. "Fora!" exclama ele,
"com todas as tentativas de produzir um cristianismo
mosqueado de composição estóica, platônica e dialética.
Depois de termos Jesus Cristo não precisaremos de nenhuma
disputa curiosa. …Tendo a fé que temos, não precisarmos de
nenhuma outra crença”
 No Daímon de Sócrates ele descobre
um demônio mau; os discípulos da Grécia não lhe parecem
ter coisa alguma em comum com "os discípulos do céu"; eles

corrompem a verdade, eles estão a procura de sua própria
fama, eles são meros palradores e não praticantes.  E
quando ele faz concessão, admitindo a presença de alguma
verdade nestes pensadores não cristãos, crê que derivaram
as suas percepções das Escrituras. A mancha da corrupção
atinge as artes também. A erudição literária, é bem
verdade, não pode ser completamente evitada; portanto,
"aprender literatura é permissível aos crentes"; mas o seu
ensino deve ser desencorajado, pois é impossível que
alguém seja um professor de literatura sem recomendar  e
sem afirmar os louvores de ídolos espalhados dentro
dela”.

Quanto ao teatro, não apenas os jogos com sua
leviandade e brutalidade, mas a tragédia e mesmo a música são ministros
do pecado. Tertuliano parece deleitar-se em sua visão do
juízo final, quando os ilustres monarcas que têm sido
deificados pelos homens, os sábios homens do mundo, Os
filósofos,  os poetas, os trágicos, ao lado de atores  e
lutadores, se angustiarão nas mais densas trevas ou serão
lançados nas chamas ardentes, enquanto o filho do
carpinteiro que eles desprezaram estará exaltado em
glória.

O grande teólogo norte-africano parece apresentar,
então, a epítome da posição "Cristo-contra-cultura".
Todavia ele se nos afigura mais radical e mais consistente
do que realmente o foi.
 Como teremos ocasião de observar,
ele não pôde, de fato, emancipar a si mesmo e a igreja da
confiança e participação na cultura, embora esta fosse
pagã. No entanto, ele permanece como uma das mais
expressivas ilustrações do movimento anticultural na
história da igreja.

Fonte: H. RICHARD NIEBUHR _CRISTO E CULTURA

Nenhum comentário:

Postar um comentário