quarta-feira, 13 de abril de 2011

Breve reflexão sobre cultura.

Cultura, Reflexão.
Partes avulsas extraídas do Livro CRISTO E CULTURA de H. RICHARD NIEBUHR

A cultura para a qual voltamos a nossa atenção não

pode ser simplesmente a de uma sociedade particular tal
como a greco-romana, a medieval ou a ocidental moderna.
Alguns teólogos, como também alguns antropologistas
pensam, de fato, que a fé cristã é intimamente relacionada
com a cultura ocidental, quer seja este termo usado para
designar uma sociedade histórica contínua, começada  a
partir do primeiro século A.D., ou para se referir a uma
série de civilizações associadas mas distintas, como no
esquema de Toynbee. Assim Ernst Troeltsch crê que  o
cristianismo e a cultura ocidental são tão
inextricavelmente entrelaçados que um cristão pouco pode
dizer a respeito de sua fé a membros de outras
civilizações, os quais, por sua vez, não podem encontrar a
Cristo a não ser como um membro do mundo ocidental o faz.

O que temos em vista quando tratamos com Cristo  e
cultura é aquele processo total da atividade humana   e
aquele resultado de tal atividade a que ora o nome
cultura, ora o nome civilização, é aplicado em linguagem
comum.
Cultura é o "ambiente artificial e secundário" que
o homem sobrepõe ao natural. Ela abrange a linguagem,
hábitos, idéias, crenças, costumes, organização social,
artefatos herdados, processos técnicos e valores.
Esta
"herança social", esta "realidade sui generis", que os
escritores do Novo Testamento tinham  sempre em mente
quando falavam do "mundo", que é representada em muitas
formas, e a que os cristãos como os demais homens estão
inevitavelmente sujeitos, é o  que queremos significar
quando falamos de cultura. Embora não possamos nos
aventurar a definir a "essência" desta cultura, podemos
descrever algumas de  suas características. De um certo
modo ela é inextricavelmente ligada à vida do homem em
sociedade: ela  é sempre social. "O fato essencial da
cultura, como a  vivemos e experimentamos, e como  a
observamos cientificamente", escreve Malinowsky, "é  a
organização de  seres humanos dentro de grupos
permanentes”. Sendo  este o fato essencial, ou não, é ele
uma parte essencial  do fato. Indivíduos podem usar  a
cultura à sua própria  maneira; eles podem trocar
elementos em sua cultura,  mas o que eles usam e mudam é
social. Cultura é a  herança social que eles recebem  e
transmitem. Aquilo  que é puramente particular, que não

provém da vida social nem a penetra, não é parte da cultura. De igual
modo, a vida social é sempre cultural. A antropologia
parece ter golpeado completamente a idéia romântica de
uma sociedade puramente natural, não caracterizada por
hábitos, costumes, formas de organização social, etc.,
altamente distintos e adquiridos. Cultura e existência
social caminham juntas.

Em segundo lugar cultura é realização humana.  Nós a
distinguimos da natureza pelo fato de vermos  nela
evidências de esforço e propósitos humanos. Um rio   é
natureza, um canal é cultura; uma peça bruta de  quartzo é
natureza, uma flecha é cultura; um gemido  é natural, uma
palavra é cultura. Cultura é a obra de  mentes e mãos
humanas. É aquela porção de herança  do homem em qualquer
lugar ou tempo que nos foi legada intencional  e
laboriosamente por outros homens, e  não o que nos tem
vindo por intermédio de seres não  humanos ou através de
seres humanos que agiram sem  intenção de resultados ou
sem o controle do processo.  Ela inclui, portanto,
linguagem, educação, tradição,  mito, ciência, arte,
filosofia, governo, lei, rito, crença,  invenções  e
tecnologia. Além do mais, se uma das marcas da cultura é o
fato de ela ser o resultado de realizações humanas
passadas, a outra está no fato de que  ninguém pode se
apoderar dela sem esforço e realização  de sua própria
parte. O mundo, na medida em que é feito pelo homem e orientado pelo homem, é
o mundo da cultura.



Estas realizações humanas, em terceiro lugar, são
destinadas a um fim ou a alguns fins. O mundo da cultura é
um mundo de valores. Se devemos, ou não, levantar questões
de valor sobre a natureza, ou fazer juízos de valor  a
respeito das ocorrências naturais, é um caso em debate.
Mas, com respeito aos fenômenos da cultura, este problema
nunca surge. Temos de admitir que o que os homens têm
feito e fazem se destina a um propósito; destina-se  a
servir ao bem. E o mesmo nunca pode ser descrito sem
referência aos fins nas mentes de inventores  e
usufrutuários. A arte primitiva nos interessa porque ela
indica o interesse humano, ritmo, cor, significações  e
símbolos; e porque estamos interessados nestas coisas.
Fragmentos de vasos de barro são estudados com a esperança
de que venham revelar aquilo que os homens do passado
tinham em mente e quais os métodos que divisaram para
alcançar os seus fins. Sempre julgamos a ciência e  a
filosofia, a tecnologia e a educação, quer no passado,
quer no presente, com referência aos valores que foram
seguidos por eles e aos valores que nos atraem.
Naturalmente, os fins a que servem as realizações humanas
podem mudar. O que foi destinado à utilidade pode ser
preservado visando à satisfação estética ou à harmonia
social. Todavia, a relação de valor é inegável onde quer
que encontremos cultura.

Ao
definir os fins que  suas atividades devem alcançar na

cultura, o homem começa consigo mesmo como o principal
valor e como fonte de todos os outros valores. O bom  é
aquilo que é bom para ele. Parece evidente, na cultura,
que os animais devem ser ou domesticados ou aniquilados,
uma vez tais medidas sirvam ao bem do homem; que Deus ou
os deuses devem ser adorados tanto quanto for desejável ou
necessário para a manutenção e desenvolvimento da vida
humana; que idéias e ideais devem ser servidos em favor da
auto-realização humana. Embora a busca do bom-para-o-homem
seja dominante na obra da cultura, não é evidente que este
antropocentrismo seja exclusivista. É não apenas
concebível que os homens devessem estar dispostos  a
trabalhar e produzir com vista ao bem-estar de algum outro
ser, mas parece também certo que eles, de fato, em suas
culturas, procuram sempre servir a causas que transcendem
a existência humana. Desde as sociedades totêmicas até as
sociedades modernas, eles se identificam com ordens de ser
que incluem mais do que os homens. Eles se definem como
representantes da ordem de seres racionais, e procuram
realizar o que é bom-para-a-razão. Eles também servem aos
deuses. A tendência pragmática de fazer todas as coisas
para o bem dos homens parece irrealizável. Deve-se
acrescentar, contudo, que nenhuma cultura é realmente
humanista num sentido mais lato, pois que somente culturas
particulares existem de fato, e em cada uma delas uma
sociedade particular ou uma classe em particular (naquela
sociedade) tende a se considerar centro e fonte de valor, 
procurando conseguir aquilo que é bom para ela,
justificando, embora, tal esforço pela pretensão de ter um
status especial, como representante de algo universal.

É falaz

pensar-se em cultura como sendo [só] materialista, como se
aquilo que o homem procurasse conseguir com o seu trabalho
fosse sempre a satisfação de suas necessidades, como um
ser físico e temporal. Mesmo as interpretações econômicas
de cultura reconhecem que além dos bens materiais - isto
é, dos valores relativos à existência física do homem,
além de comida, bebida, roupa, procriação e ordem
econômica - os homens, na cultura, procuram valores menos
tangíveis. Mas mesmo os bens imateriais devem ser
concretizados em forma temporal e material; mesmo o bompara-o-homem, como pessoa e mente, deve receber "uma
habitação e nome locais". Prestígio e glória por um lado,
beleza, verdade e bondade, por outro - para usarmos
símbolos insatisfatórios da teoria de valor espiritual  -
fazem-se presentes no sentimento, imaginação ou na visão
intelectual. E o esforço humano insiste em incorporar em
formas concretas, tangíveis, visíveis e audíveis, o que
tem sido discernido imaginativamente. A harmonia  e
proporção, a forma, ordem e ritmo, os significados  e
idéias que os homens concebem e traçam em seu confronto
com a natureza, eventos sociais e o mundo dos sonhos,
estes, por meio de infinito labor, eles têm de pintar em
paredes e telas, de editar como sistema de filosofia  e
ciência, de esboçar em pedra esculpida ou fundir em
bronze, de cantar em balada, ode ou sinfonia. Visões de
ordem e justiça, e esperança de glória são, ao preço de
muito sofrimento, incorporadas em
leis escritas, ritos dramáticos, estruturas de governo,
impérios e vidas ascéticas.

Muito da energia que os homens

usam em qualquer época em suas sociedades se presta a essa
tarefa complicada de preservar o que eles herdaram  e
fizeram. Suas casas, escolas e templos, suas estradas  e
máquinas estão em constante necessidade de conserto.  O
deserto e o mato ameaçam qualquer terreno cultivado.  E
maiores ainda são os perigos que circundam as conquistas
menos materiais do passado. Os sistemas de leis  e
liberdades, os costumes de inter-relações sociais, os
métodos de pensamento, as instituições de ensino  e
religião, e as técnicas de arte, de linguagem e de
moralidade, não podem ser preservados por simples
manutenção, mediante conserto das paredes e documentos que
são seus símbolos. Em cada geração eles têm de ser
escritos de Novo "nas tábuas do coração". Se a educação e
o aprendizado forem negligenciados por uma geração, cairá
em ruínas toda a grandiosa estrutura das conquistas do
passado. Cultura e tradição social que deve ser conservada
mediante dolorosa luta, não tanto contra as forças
desumanas naturais, quanto contra os poderes
revolucionários e críticos na vida e razão humanas.
Mas, quer estejam em questão os costumes ou os artefatos,  a
cultura não pode ser mantida, a não ser que os homens
devotem uma grande parte dos seus esforços à obra de
conservação.

Os valores são muitos, em parte porque os
homens são muitos. A cultura se dedica ao que é bom para

os sexos masculino e feminino, para criança e adulto, para
governantes e governados; ao que é bom para homens em
vocações e grupos especiais, de acordo com as noções

costumeiras de tal concepção do bom. As culturas sempre estão procurando combinar paz com prosperidade, justiça com ordem, liberdade com bem estar, verdade com beleza, verdade científica com bem
moral, capacidade técnica com sabedoria prática, santidade
com vida, e tudo isto com o restante. Entre os muitos
valores, o Reino de Deus pode ser incluído - embora
dificilmente - como uma pérola de grande preço. Jesus
Cristo e Deus, o Pai, o evangelho, a Igreja, e a vida
eterna podem encontrar lugares no complexo cultural, mas
somente como elementos no meio do grande pluralismo.







Estas são algumas das características óbvias daquela
cultura que impõe as suas exigências sobre qualquer
cristão, pois que este vive também sob a autoridade dela,
quando vive sob a autoridade de Jesus Cristo. Muito embora
às vezes enunciemos o problema humano fundamental como
sendo o de graça e natureza, na existência humana não
conhecemos uma natureza à parte da cultura. De qualquer
forma não podemos nos escapar mais prontamente da cultura
do que da natureza, pois "o homem da natureza,  o
Naturmensch, não existe," e “nenhum homem jamais olha
para o mundo com priscos olhos”

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