quarta-feira, 27 de abril de 2011

Usos e Costumes e a Doutrina Pentecostal

Doutrina, usos e costumes

Os usos e costumes são uma velha questão nos círculos pentecostais. Os usos e costumes fazem parte de todas as instituições e sociedades. Todas as igrejas têm as suas tradições, impostas ou espontâneas. Por muito tempo se confundiu costumes com doutrina, mas há diferenças significativas entre esses conceitos. 

O que é costume? O lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda definiu costume como “uso, hábito ou prática geralmente observada”1. O dicionarista Adriano da Gama Cury definiu, de maneira mais completa a palavra costume, como “uso, prática habitual; modo de proceder; característica, particularidade; prática jurídica ou religiosa não escrita, baseada no uso; moda; traje característico ou adequado...”2. Essas definições mostram que o costume é um hábito repedidamente adotado por um determinado grupo social. Os costumes fazem parte da identidade de uma instituição.

O que é doutrina? No Novo Testamento, a palavra mais usada para doutrina é didache e significa ensino, instrução, tratado e doutrina. Segundo o teólogo Claudionor Corrêa de Andrade, doutrina é a “exposição sistemática e lógica das verdades extraídas da Bíblia, visando o aperfeiçoamento espiritual do crente”³. Doutrina, portanto, é o resultado do um ensino teológico, adotado por uma denominação ou religião.

O pastor Antonio Gilberto, M.D., apresentou em seu livro Manual da Escola Dominical4, algumas diferenças entre usos e costumes, e neste artigo será apresentada outras diferenças, além da lista exposta pelo grande teólogo pentecostal.

a) A doutrina é de origem divina, o costume é de origem humana. 

A doutrina é divina pois está baseada na inspirada Palavra de Deus. Para um idéia ser doutrina bíblica, é preciso que ela esteja exposta por todo o texto sagrado. Nunca uma verdadeira doutrina é baseada em textos isolados.

O costume é imposto por convenções humanas de maneira espontânea ou obrigatória, sendo assim, o costume é humano. Há muitos que tentam achar textos bíblicos para justificar a perpetuação de sua tradição, mas normalmente praticam a eisegese5, ou seja, dizem o que bem querem e tentam justificar na Bíblia. O teólogo Esdras Costa Bentho, escrevendo sobre a eisegese, disse:

O intérprete está cônscio de que a interpretação por ele asseverada não está condizente com o texto, ou então está inconsciente quanto aos objetivos do autor ou do propósito da obra. Entretanto, voluntária ou involuntariamente, manipula o texto a fim de que sua loquacidade possa ser aceita como princípio escriturístico. 6

Tentar justificar na Bíblia as tradições é uma tarefa que tem levado a muitas distorções bíblicas. O melhor é reconhece-la com humana.

b) A doutrina é imutável, o costume muda. 

A doutrina é permanente, ela nunca muda. A doutrina da justificação pela fé, exposta principalmente nos primeiros capítulos de Romanos, nunca mudou e nem deve ser mudada. Doutrina (bíblica) mudada é heresia. Quando Lutero resgatou a doutrina da justificação pela fé, ele orientou a igreja a voltar na perspectiva bíblica sobre o assunto. São passados mas de dois mil anos e essa doutrina nunca mudou no verdadeiro cristianismo.

O costume não é imutável. No Brasil era comum os cidadãos andarem pelas ruas de chapéus, tanto homens como mulheres, passados os anos não há mais essa costume no país. Antigamente, os pais escolhiam com quem a sua filha casaria, mas também esse costume mudou. É necessário que o costume mude, pois o ele está ligado à cultura local, e toda cultura é dinâmica. Mudar alguns costumes não significa passar do são para o diabólico, como muitos pregam. A mudança é inevitável e deve ser bem orientada, mas como enfatizado, é sempre necessária. É bem relevante o que o teólogo britânico John Stott escreveu no seu livro Cristianismo Equilibrado7:

Quando resistimos a mudanças- sejam elas na igreja ou na sociedade devemos perguntar-nos se são na realidade, as Escrituras que estamos defendendo(como é nosso costume insistir ardorosamente) ou, se ao contrário, é alguma tradição apreciada pelos anciãos eclesiásticos ou de nossa heranças cultural. Isto não quer dizer que todas as tradições, simplesmente por serem tradicionais, devam a qualquer custo ser lançadas fora. Iconoclasmo sem crítica é tão estúpido quanto conservantismo sem crítica, e é algumas vezes mais perigoso. O que estou enfatizando é que nenhuma tradição pode ser investida com uma espécie de imunidade diplomática à examinação. Nenhum privilégio especial pode ser-lhe reivindicado.

Algumas igrejas estão impondo mudança de costumes, isso é um erro, que sempre levará a exageros. Os costumes mudam naturalmente, mas devem seguir orientação para não levar a práticas anti-bíblicas. As igrejas sem orientação pastoral tem aderido a costumes extravagantes, como bailes fanks em meio ao culto. Tudo deve ser feito com equilíbrio, nada de permissividade e nem de legalismo.

c) A doutrina é universal, o costume é local.

A doutrina é universal no sentido que é para todos os povos em todas as culturas. Proclamar que Jesus é o salvador faz sentido no Brasil em 2007, como para os indianos que foram evangelizados pelo apóstolo Tomé, o primeiro missionário daquela nação, ainda no primeiro século da Era Cristã.

O costume é local. Os homens na Escócia usam um tipo masculino de saia; no Siri Lanka é também costume as saias para homens. Saia na maior parte do Ocidente é roupa exclusivamente feminina. No Brasil é comum comer peixe cozido ou frito, no Japão se come peixe-cru.

d) A doutrina santifica, o costume não santifica.

A doutrina bíblica santifica o crente mediante a Palavra de Deus. Jesus disse; “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”(Jo 17.17). O ensino da Palavra de Deus, ou seja, das doutrinas bíblicas, é um dos meios que Deus usa para levar o crente a uma vida reta, assim como escreveu o salmista: “Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra”(Sl 119.9). John Henry Jowett disse: “Você não pode abandonar os grandes temas doutrinários e ainda assim produzir grandes santos”, e o pastor A. W. Tozer escreveu: “O propósito que está por trás de toda doutrina é garantir a ação moral”. Por isso é bom lembrar que a doutrina bíblica produz, naturalmente, bons costumes.

O costume não pode santificar. Quem acredita na santificação por meio dos costumes, normalmente, é um escravo do legalismo. O pastor Antonio Gilberto escreveu a respeito do erros em relação a santificação e citou o engano de associar exterioridade com santidade: “Usos, práticas e costumes. Esses últimos, quando bons, devem ser o efeito da santificação, e não a causa dela”.8 E bem relevante o que escreveu o pastor Ciro Zibordi no prefácio do livro Verdades Pentecostais:

Conservar não significa possuir uma falsa santidade, fazendo dos usos e costumes uma causa, e não um efeito. Como pode ser ao longo dessa obra , a observância da sã doutrina leva-nos a ter santidade interna e externa, o que implica vida santa a partir do espírito (1Ts 5.23) e manutenção dos bons costumes. Estes, pois, não devem gerar doutrinas, como vem acontecendo em algumas igrejas não legitimamente avivadas, para prejuízo de seus membros.9

O farisaísmo se caracterizava por associar sua obras com salvação. Há muitos que fazem dos costumes doutrina e assim, pensam que para serem salvos precisam fazer isso ou aquilo. Como dizia Lutero: “As boas obras não fazem o homem bom; mas o homem bom pratica as boas obras”. A inversão dessa ordem cria escravos do farisaísmo e não servos do Altíssimo.

e) A doutrina é um princípio, o costume é um preceito.

Há diferença entre princípio e preceito? Sim. O pastor José Gonçalves escreveu: “Os preceitos apontam para princípios e não o contrário. Um princípio é aquilo que está por trás do preceito ou norma”.10 Por exemplo, usar uma roupa social em um tribunal é uma norma, um preceito. O princípio ou doutrina por trás dessa norma é que o tribunal é um lugar sério e não ambiente de entretenimento, onde possa ir de jeans ou short.

f) A doutrina é verdade absoluta, o costume é uma verdade relativa.

A doutrina é sempre verdade absoluta, ou seja, é para todos, em todas as épocas e em todos os lugares.

O costume é relativo, como lembra o pr. Geremias do Couto:

Ao insistirmos nos absolutos, não queremos afirmar que não haja também conceitos relativos. Essa diversidade se manifesta, por exemplo, nas comidas típicas de cada país, nos estilos da arquitetura, no estilo da vestimenta e até mesmo em relação à hora de dormir, que depende do fuso horário. Mas tais circunstâncias relativas acabam apontando para princípios biológicos absolutos; todos precisam alimentar-se, todos precisam dormir.11

O costume, por ser relativo, não deveria ser imposto como obrigação. Era comum missionários europeus tentarem impor os costumes do norte em países da Ásia e da América. Hoje, o conceito de transculturação está ajudando muito em relação a esse problema.

Há muitas outras diferenças entre doutrina e costumes, mas fica apontado que ambas não são a mesma coisa, porém estão ligadas umas as outras. O bons costumes são aqueles que não escravizam o crente, colocando um jugo que Jesus tirou na cruz, mas sim, é resultado da boa doutrina.

Notas: 
1- HOLANDA, Aurélio Buarque de. Mini-Aurélio Século XXI Escolar. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000. p. 190.

2- KURY, Adriano da Gama. Minidicionário Gama Kury da Língua Portuguesa. 1 ed. São Paulo: FTD, 2001. p.265.

3- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 12 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 128.

4- Publicado pela CPAD(Casa Publicadora das Assembléias de Deus).

5- Prática de forjar o texto a fim de que justifique o pensamento próprio. Não confunda com exegese.

6- BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada. 3 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p. 69.

7- Publicado pela CPAD(Casa Publicadora das Assembléias de Deus).

8- GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 142.

9- ZIBORDI, Ciro Sanches. Idem, pp 3,4.

10- GONÇALVES, José. Voto de Nazireado, prática judaizante que despreza a doutrina da graça.Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 4, n. 12, p. 26, Jun-Jul-Ago/2004.

11- COUTO, Geremias do. E agora, como viveremos? Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 39, 4. trimestre de 2005. 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Reflexão_Cristo x Cultura. "O Problema do exclusivismo Cristão"


Ela é uma resposta inevitável, mas é também
inadequada, como os membros de outros grupos na Igreja
podem facilmente verificar. Ela é inadequada porque afirma
com palavras o que nega na prática, a saber,  a
possibilidade de dependência somente de Jesus Cristo, com
a exclusão da cultura. Cristo não chama homem algum como
um ser puramente natural, mas sempre como alguém que se
fez humano dentro de uma cultura, alguém que não existe
apenas na cultura, sendo, contudo, alguém em quem  a
cultura tem penetrado. O homem não apenas fala, mas também
pensa com a ajuda da linguagem da cultura. Não apenas tem
o mundo objetivo em volta dele sido modificado por
realizações humanas, mas as próprias formas e atitudes de
sua mente, que lhe permitem perceber o sentido de mundo
objetivo, lhe têm sido dadas pela cultura. Ele não pode
desprezar a filosofia e ciência de sua sociedade, como se
estas fossem externas a ele. Elas estão nele, embora em
formas diferentes daquelas que aparecem nos líderes da
cultura. Ele não pode se livrar das crenças políticas  e
dos costumes econômicos pela rejeição das instituições
mais ou menos externas, pois estes costumes e crenças têm
estabelecido residência na sua mente. Se os cristãos não
se apresentam a Cristo com a linguagem, padrões de
pensamento, e disciplina moral do judaísmo, eles o farão
com os de Roma; se não for com os de Roma poderá ser com
os da Alemanha, da Inglaterra, Rússia, América ou China.
Daí estarem os cristãos radicais sempre fazendo uso da
cultura ou de partes da cultura que eles rejeitam
ostensivamente. O escritor de 1 João usa os termos daquela
fisolofia gnóstica cujo uso pagão ele não aprova.
Clemente de Roma usa idéias semi-estóicas. Em quase toda a
sua maneira de falar Tertuliano deixa evidente que ele é
romano, tão bem educado na tradição legal e tão dependente
da filosofia, que não pode expor a questão cristã sem

a sua ajuda.

 Tolstoi se torna inteligível quando
interpretado como um russo do século dezenove, que
participa, tanto conscientemente quanto nas profundezas de
sua alma inconsciente, dos movimentos culturais do seu
tempo e do senso místico de comunidade dos russos, com os
homens e com a natureza. E isto acontece com todos os
membros de grupo radical cristão. Quando eles se encontram
com Cristo, o fazem como herdeiros de uma cultura que não
podem rejeitar por ser parte deles. Eles podem se retirar
de suas expressões e instituições mais óbvias, mas, na
maioria dos casos, podem apenas selecionar - e modificar,
sob a autoridade de Cristo - algo que receberam por
intermédio da sociedade.
A conservação, seleção e conversão das realizações
culturais não são apenas um fato. São também uma exigência
moralmente inescapável, com que o cristão exclusivista tem
que se defrontar por ser uni cristão e um homem. Se ele
vai confessar Jesus Cristo diante dos homens, terá de
fazê-lo por meio de palavras e idéias derivadas da
cultura, embora uma mudança de sentido se faça também
necessária. Ele deve usar palavras tais como "Cristo" ou
"Messias" ou "Kyrios" ou “Filho de Deus" ou "Logos”. Se
ele vai dizer o que significa "amor", terá de escolher
entre palavras tais como  “Eros”,  “filantropia" e  "agape",
ou "caridade", "lealdade" e "amor", procurando a que mais
se aproxime do significado de Jesus Cristo, e modificandoa pelo uso no contexto. Estas coisas ele terá de fazer,
não somente para que possa comunicar, mas para que ele
mesmo conheça o que (e em quem) ele crê. Quando se dispõe
a cumprir os preceitos de Jesus Cristo, ele se vê, em
parte, sob a necessidade de traduzir em termos de sua
própria cultura o que foi ordenado em termos de outra, e,
em parte, sob a exigência de dar precisão e sentido aos princípios gerais, adotando regras especificas que sejam
relevantes à sua vida social. Qual é o sentido das
declarações de Jesus a respeito do sábado, em uma
sociedade que não guarda tal dia? Devem tais declarações
ser introduzias e modificadas, ou deixadas de lado como
parte de uma cultura alheia e não cristã? Qual é o sentido
de orarmos a um Pai no céu, em uma cultura com uma
cosmologia que difere radicalmente daquela da Palestina do
primeiro século? Como serão os demônios expulsos onde não
se aceita que eles existem? Não há jeito de escaparmos da
cultura aqui. A alternativa parece estar entre o esforço
de reproduzir a cultura em que Jesus viveu, ou o de
traduzir suas palavras na de outra ordem social. Além
disto, o mandamento de amor ao próximo não pode ser
obedecido, exceto em termos específicos que envolvem  a
compreensão cultural da natureza do próximo, e exceto em
atos específicos dirigidos a ele, como um ser que tem um
lugar na cultura, como membro da família ou da comunidade
religiosa, como amigo ou inimigo nacional, como rico ou
pobre. Em seu esforço de ser obediente a Cristo, o cristão
radical re-introduz, portanto, idéias e regras da cultura
não-cristã em duas áreas: no governo da comunidade cristã
que se retirou, e na regulamentação do comportamento
cristão com referência ao mundo que está fora.
A tendência do Cristianismo exclusivista é a de
confinar os mandamentos de lealdade a Cristo, de amor  a
Deus e ao próximo, dentro dos limites da comunidade
cristã. Aqui também as outras exigências do evangelho
devem ser impostas. Mas, como Martin Dibelius, entre
muitos outros, tem observado, "as palavras de Jesus não
foram propostas como regras éticas para uma cultura cristã
e, mesmo que fossem assim aplicadas, não seriam
suficientes para prover uma resposta a todas as questões da vida cotidiana”.

 Outras ajudas se fizeram
necessárias, e foram encontradas pelos cristãos dos
primeiros tempos na ética popular judaica e judaicohelenística. É admirável o quanto a ética do Cristianismo
do segundo século - como sintetizada, por exemplo, no
Ensino dos Doze e na Epístola de Barnabé - contém de
material estranho ao Novo Testamento. Estes cristãos que
pensavam a respeito de si mesmos como sendo uma nova
"raça", distinta de judeus e gentios, buscaram nas leis e
costumes de que se tinham separado aquilo de que eles
necessitavam para a vida comum, mas não tinham recebido de
sua própria autoridade. A situação é semelhante no caso
das regras monásticas. Bento de Núrsia busca base
espiritual para todas as suas regulamentações e conselhos,
mas o Novo Testamento não é suficiente para ele, e nem a
Bíblia como um todo. E ele deve encontram em velhas
reflexões sobre a experiência humana na vida social, as
regras por meio das quais vai ser governada a nova
comunidade. O espírito em que as regulamentações tanto
escriturísticas como não escriturísticas são apresentadas
também mostra quão impossível é ser-se apenas um cristão
sem referência à cultura. Quando Tertuliano recomenda
modéstia e paciência, os semitons estóicos estão sempre
presentes. E quando Tolstoi fala de não-resistência, as
idéias rousseauístas estão no contexto. Mesmo quando não
se fez uso algum de outra herança, a não ser a que veio de
Jesus Cristo, as necessidades da comunidade retirante
levam ao desenvolvimento de uma nova cultura. Invenção,
realização humana, realização temporal de valor,
organização da vida comum - tudo deve entrar. Quando os
dogmas e ritos da religião social têm sido abandonados, um
Novo dogma e um Novo ritual devem ser desenvolvidos, se a
prática religiosa se destina a ter seqüência. Portanto, os
monges elaboram os seus próprios rituais em seus
mosteiros, os silêncios quakers se tornam tão formalizados como massas, e os dogmas de
Tolstoi são tão confiantemente proclamados como os da
Igreja russa. Quando o Estado foi rejeitado, a comunidade
cristã exclusivista desenvolveu alguma organização
política própria e o fez com ajuda de idéias que não foram
as que procediam da injunção de que o primeiro será servo
de todos. Ela tem chamado os seus líderes de profetas ou
abades, e suas assembléias governantes de reuniões
trimestrais ou congregações. Ela tem, por meio da opinião
popular, imposto a uniformidade e o expediente de expulsão
da sociedade. De qualquer maneira ela tem mantido uma
ordem interna, não de um modo geral, mas dentro de um modo
específico de vida. As instituições de propriedade
vigentes foram postas de lado, mas alguma coisa além do
conselho de vender tudo e dar aos pobres se fez
necessária, de vez que mesmo em estado de pobreza os
homens tinham de se alimentar, de se vestir e de se
abrigar. Portanto, as vias e os meios de aquisição  e
distribuição de bens foram descobertos e uma nova cultura
econômica foi estabelecida.
No trato com a sociedade que considera pagã, mas da
qual nunca consegue se separar totalmente, o cristão
radical também tem sempre sido solicitado a recorrer  a
princípios que ele não conseguiu derivar diretamente de
sua convicção da soberania de Cristo. O seu problema aqui
tem sido o de viver em um intervalo. Quer sejam os
cristãos exclusivistas escatologistas ou espiritualistas,
em ambos, os casos eles têm de levar em conta o "por
enquanto", o intervalo entre a aurora de uma nova ordem de
vida e sua vitória, o período em que a temporal e  o
material não têm sido transformados ainda em espiritual.
Eles não podem, portanto, se separar completamente do
mundo da cultura que está ao redor deles, nem daquelas
necessidades deles mesmos que tornam esta cultura
indispensável. Embora o mundo esteja em trevas, distinções
entre o que é relativamente certo e errado têm de ser feitas neste mesmo
mundo, e nas relações cristãs com ele. Assim, Tertuliano,
ao escrever para a sua mulher, aconselhada a permanecer
viúva no caso de ele morrer primeiro. Ele renuncia  a
qualquer motivo de ciúme ou de posse, pois tais motivos
carnais serão eliminados na ressurreição, e "não haverá
naquele dia nenhum reinício da desgraça voluptuosa entre
nós”. Ela deve permanecer viúva porque a lei cristã
permite apenas um casamento, e porque a virgindade  é
melhor do que o casamento. O casamento não é realmente
bom, mas apenas não é um mal. Na verdade, quando Jesus
diz: "’Eles estavam casando-se e comprando’, ele assinala
aquilo que é o principal dos vícios da carne e do mundo,
aquilo que mais desvia o homem da disciplina divina”.
Portanto, Tertuliano aconselha sua mulher a aceitar a sua
morte como o chamado de Deus para o grande bem de uma vida
de continência. Mas depois disto ele escreveu uma segunda
carta em que ele deu o "próximo melhor conselho," no
sentido de que, se ela sentisse necessidade de casar-se
outra vez, ela, pelo menos, deveria "casar-se no Senhor",
isto é, casar-se com um cristão e não com um não-crente.

Pode-se encontrar, no fim, em Tertuliano, toda uma escala
de bens e males reativos, em sua estimativa das ordens da
vida sexual do homem no intervalo antes da ressurreição:
um único casamento na vida é relativamente bom quando
comparado com um segundo casamento; todavia se o mal do
segundo casamento ocorrer, o casamento com um crente  é
relativamente bom. Se Tertuliano tivesse insistido nesta
questão, talvez tivesse admitido que no caso de haver
casa- mento com não-crente, um casamento monógamo seria
uma perversidade melhor do que um casamento polígamo,  e
mesmo que um mundo desordenado de poligamia seria
relativamente bom comparado com as relações sexuais
totalmente irresponsáveis.


Outras ilustrações da necessidade de reconhecimento
das leis relativas ao tempo do intervalo e à existência de
uma sociedade pagã podem ser achadas na história dos
Amigos *, que se preocupavam com o fato de que, desde que
existisse uma viciosa instituição de escravidão, os
escravos deveriam ser tratados "com justiça"; e uma vez
havendo compra e venda, um tabelamento de preço deveria
vigorar. Pensemos, também, nos pacifistas cristãos, que,
tendo rejeitado as instituições e práticas da guerra como
completamente más, procuram, contudo, manter armamentos
limitados e certas armas proibidas. A filha do conde
Tolstoi contou a história da tragédia do seu pai, que foi,
pelo menos em parte, a tragédia de um cristão 
exclusivista, cujas responsabilidades não lhe permitiam
escapar aos problemas do "por enquanto". Para si mesmo ele
podia escolher a vida de pobreza, mas não para a sua

mulher e filhos, que não participavam de suas convicções.
Ele não queria a proteção da policia, e não precisava
dela, mas era membro de uma família que exigia a proteção
da força. Assim o pobre homem vivia, em sua rica situação,
uma responsabilidade que era ambígua e contrária à sua
vontade. O não resistente esteve protegido contra motins
até a sua morte. A condessa Alexandra relata a história
que apresenta dramaticamente o problema, e indica que até
mesmo Tolstoi teve de reconhecer que a consciência e  a
regra do direito apresenta suas exigências ao homem no

meio das más instituições. De vez que ele tinha renunciado
ao direito de propriedade, mas permaneceu ligado à sua
família, a responsabilidade da direção de tudo ficou com
sua mulher, que não estava preparada para tanto. Sob sua
supervisão inadequada, mordomos incompetentes ou
desonestos deixaram que a propriedade caísse em desordem
geral. Um horrível acidente ocorreu em conseqüência da má administração: um
camponês foi enterrado vivo em um areai abandonado. "Eu
raramente vi meu pai tão sobressaltado", escreve sua
filha. “‘Tais coisas não podem acontecer, elas não podem
acontecer’, ele esteve dizendo à minha mãe. 'Se você
deseja uma propriedade você tem de dirigi-la bem, ou então
abandoná-la por completo’”.

Casos deste tipo, que ilustram os ajustamentos de
cristãos radicais a uma cultura rejeitada e má, porém
inescapável, podem ser multiplicados. E eles deleitam. os
seus críticos. Mas sem dúvida o deleite é prematuro e sem
fundamento, pois casos como estes apenas reavivam o dilema
cristão que é comum. A diferença entre os radicais e os
outros grupos é, freqüentemente, apenas esta: os radicais
falham em reconhecer o que estão fazendo, e continuam  a
falar como se estivessem separados do mundo. Algumas vezes
as contradições são muito explícitas, em seus escritos,
como no caso de Tertuliano, que parece argumentar contra
si mesmo, em assuntos como o valor da filosofia e do
governo. Freqüentemente são implícitas e se expressam
apenas no comportamento contraditório. Em ambos os casos,
o cristão radical confessa que não tem o problema Cristo e
cultura, como um problema resolvido, mas apenas está
procurando uma solução em termos de uma certa linha.