terça-feira, 16 de agosto de 2016

EM CRISTO A MORTE É DOCE

Extraído do site : www.caiofabio.net


EM CRISTO A MORTE É DOCE


A "Vida é Bela" deveria ser mais dificil de fazer acreditar do que no fato de que a "Morte é Doce". Afinal, todos somos testemunhas de que a natureza é bela, mas o mundo dos humanos apenas manifesta algumas belezas, mas é mais freqüentemente cruel e implacável!
Apesar disso, Jesus disse:

“Aquele que ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, não entra em juízo; já da morte para a vida”.

Ou seja: dá para se experimentar a eternidade ainda na experiência da existência neste planeta caído.

A eternidade não será!

Em Cristo ela já é!

O mundo é cruel, mas nosso alvo deve ser experimentar a existencialidade da eternidade mesmo que ainda se esteja vivendo dentro das limitações de nosso presente estado de existência.

Paulo via a morte de uma maneira vitoriosa. Ele não a buscava.
Preferia adiar sua partida a fim de que a Graça em sua vida histórica se tornasse o mais útil possível!

Enquanto no corpo ausentes do convívio glorificado no e com Senhor Jesus!

O tabernáculo terrestre—o corpo—é corruptível!

O corpo celestial é incorruptível!

Assim, o viver é Cristo; o morrer é lucro!

Para Paulo era certo que o homem exterior se corrompe com o passar do tempo. Vem a velhice, a canseira, os achaques nas juntas, os pesos, a perda da visão, da audição, da energia construtivista—e a dor da sabedoria de quem sofre não pelo seu próprio futuro, mas pelo daqueles que ama e aqui ficarão.

O contraponto é que ele diz que em Cristo o homem interior se renova de dia em dia!

Isto para quem considera a leve e momentânea tribulação como algo a não ser comparado com o peso de gloria a ser revelado em nós.
Depois de ir ao terceiro céu...bem, depois disso, ele sabia que o que olhos não viram, o que os ouvidos nunca haviam ouvido, e também aquilo que nunca jamais havia subido como imaginação inspirada pela mais mágica fantasia artística, teológica, filosófica, sinfônica, degustativa, sensorial ou extrasensorial—era o que Deus havia reservado para aqueles que o amam!

“Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito”—diz ele!

Não era licito aos homens referir somente porque era irreferível. Nem sempre o revelado cabe em palavras!

Paulo viajou do caminho da certeza da vida eterna até chegar ao prazer pela eternidade!

Essa é uma viagem que poucos cristãos fazem. E é tão raro, não porque não se tem certeza da salvação, mas porque a morte é um tabu de dor transacional para a maioria de nós.

“O que acontecerá na passagem?”—é sempre a questão, mesmo quando não se tem a coragem de confessar!

Bem, a passagem não terá acontecido enquanto o corpo estiver sofrendo. E o corpo pode sofrer de dor de física, mas também da dor do medo.

O medo de como é a passagem faz sofrer muito mais que a passagem em si!

Mas se de algum modo o espírito está cativo da eternidade como prazer, então a morte—que já perdeu seu poder de apavorar como dor eterna—perde também sua força como fobia da passagem!

É como nascer!

Só que não é do abrigo do útero para a dor do mundo. É a passagem do terror da corrupção do corpo—em todas as suas dimensões—para o inesgotável mergulho no amor infinitamente surpreendente do ser de Deus.

Minha suposição é que Paulo foi levado para a decapitação com a serenidade feliz dos premiados. Muitos anos antes daquele dia Pedro havia dormido na prisão da Fortaleza Antônia, em Jerusalém, na véspera de sua própria execução.

Para quem chegou aí, mesmo que haja dor física na passagem, não é para comparar com o peso de glória que o aguarda. Até a dor se adocica nesse estado!

É no mínimo como um cafuné celestial. Creio que deve fazer extasiante coceira no cocuruto da alma e no cangote do espírito!

Nesse caso não se tem somente a certeza da salvação. Tem-se o êxtase dela!

A viagem de fé nesta vida deve poder nos levar ao nível de pacificação que produz essa alegria calma no ser. Afinal, o próprio Paulo disse: “...a morte é vossa...e vós de Cristo, e Cristo de Deus”.


Caio

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Santidade segundo Jesus

Extraído do site www.caiofabio.net
(Trecho do livro Oração para Viver e Morrer, páginas 38 a 41, por CAIO FÁBIO, 1994; digitação de Dora Ramos)


Vejamos o que Jesus estava nos ensinando quando relacionou o tema da santidade à Palavra e aquilo que Deus faz a nosso favor.

1. O tema da Santidade conforme relacionado à Palavra de Deus (João 17: 17). Para Jesus, a Palavra de Deus era o que poderia nos santificar. E para Ele não se tratava de uma definição de santificação esotérica e mágica. Ele não tinha em mente nenhum tipo de exposição mágica da alma humana à Palavra ao fim da qual a pessoa estivesse mais santa. Na sua mente não passavam aquelas "percepções" de que a mera exposição à Palavra santificava o ouvinte. Para Jesus, ser santificado tinha, na verdade, uma profunda e indissolúvel relação com a assimilação dos conceitos da verdade de Deus, mediante um aprendizado não apenas teórico e teológico da letra da Palavra, mas mediante a vivência da presença de Deus na história em conformidade com o padrão da Palavra de Deus feita verdade no coração.

Tal percepção da relação da Palavra com a vida deve nos comprometer com a confissão de que Deus é santo e com a vivência da santidade. Além disso, ela nos induz também a perguntar por dois conceitos básicos encontrados na prática de Jesus. O primeiro tem a ver com o conceito de Palavra de Deus no entendimento de Jesus. E o segundo é aquele relacionado a como Jesus, à luz de Sua interpretação da Palavra, entendia o tema da santidade.

Comecemos com o que a Palavra significava para Jesus e o que Ele chamava de Palavra de Deus. Inicialmente devemos dizer que Jesus olhava para a totalidade do Velho Testamento como Palavra de Deus (Jo. 5:39). Para Ele a questão nunca esteve entre o que era ou não Palavra de Deus no Velho Testamento, mas, apenas, em como entender, interpretar e aplicar essa Palavra ao contexto da vida humana. Ora, neste sentido Mateus 22: 23-46 é o melhor exemplo disso. Nos três episódios narrados naquele texto, a grande questão não é o que é Palavra de Deus, mas como entendê-la e aplicá-la (Mt. 23:2,3). É por esta razão que nós não vemos na prática de Jesus querelas teológicas, na perspectiva seletiva a respeito do que deveria ser retirado do Velho Testamento para ser abandonado ou reforçado na prática dos seus discípulos (Lc. 24:45). Pelo contrário, para Ele, o Velho Testamento dava uma base e finalidade histórica (Lc. 4:16-19). Sua missão tinha suas raízes mais profundas nos sonhos dos profetas (Lc. 24.27). Seus sofrimentos e glórias já tinham sido vistos e saudados desde o início da caminhada histórica do povo de Israel (Lc. 22.36,37). Ele próprio tinha sido alegria existencial e a inspiração dos patriarcas e profetas (Jo. 8.56). Sua mensagem não era nova, mas o aprofundamento da revelação já existente (Mt. 22:34¬40; Lc. 10.25-28). Sua expectativa de aceitação e rejeição do seu ministério se baseava naquilo que a Palavra lhe autorizava a esperar (Mt. 13.14,15). A própria maneira sombria pela qual ele anuncia sua morte se fundamenta numa interpretação teológico-ideológico da freqüente e histórica atitude do povo de Israel, conforme descrita nas Escrituras (Lc 13.31-35). Para Ele, o Gênesis de 6 a 11 era digno de confiança histórica (Mt. 24.38-39). Além disso, o modo pelo qual ele interpretava a saúde relacional do homem e da mulher se fundamentava na originalidade do plano da criação conforme revelado no Gênesis (Mt. 19.4-6). A conexão entre pecado e queda, bem como entre ideal e realidade era para ele extraída da Escritura (Mt. 19:7-9).

Até mesmo textos do V.T. de ares místicos foram encarados por ele como absolutamente simples e reveladores do modo pelo qual Deus age na história (Mt. 16.1-4). Assim, tudo que Jesus fazia tinha seu fundamento no Velho Testamento. Seu território ministerial (Mt. 4.12-17), o exercício das curas (Mt. 8.16-17), a pregação (Lc. 4.16-19), o ensino (Mt. 6-7) e a atitude de discrição e singela misericórdia (Mt. 12.15-21) estavam fundamentados no Velho Testamento. Seu sermão do Monte era, em síntese, a pregação do sonho dos profetas. De fato, o Sermão do Monte é a condensação das utopias dos profetas. Aquilo que eles não tinham conseguido chamar de História, Jesus chamou Vida. 

Concluindo, nós poderíamos dizer que, literalmente, toda a Escritura tem em Jesus sua afirmação: o Pentateuco (Mt. 22.23-29), os livros históricos (Mt. 12.1-7), os poéticos (SI. 118.26;22.8), as sabedorias (Mt. 12.42) e os profetas (Mt. 26.31). O próprio fato das genealogias de Jesus estarem incluídas nos evangelhos com todas as ambigüidades “morais” às quais elas estavam sujeitas, pois Jesus descende de gentios (Mt. 1.3,5), adúlteros (Mt. 1.3-6), prostituta (Mt. 1.6), homicidas (Mt. 1.10) e ancestrais cheios de sincretismos (Mt. 1.7-10), nos mostra que, propositalmente, Ele quer estar ligado à História do Velho Testamento (Jo. 5.39).

Isto posto, devemos agora relacionar a Palavra com o fato de Jesus ter dito que deveríamos ser santificados por ela. Ora, nesse caso nossa visão do escopo e da profundidade da santificação muda radicalmente. Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39). Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14). Ser santo é viver a alegria do conhecimento de Deus com oração e fé e é sofrer as angústias da história como resultado de nossos vínculos com um padrão que o mundo não conhece (Mt. 11.25-27; 5.11-12). Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48). Ser santo é ter na paixão dos profetas a motivação existencial para o nosso enfrentamento histórico do mal (Lc. 13.33). Ser santo é, mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais "sagradas" (Mt. 23.23). Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37). Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade.(Mc.7.5;Lc.7.39).


Para Jesus ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46). Ser santo é admitir que o amor pode ser exercido na perspectiva da disciplina física (Mc. 11.15-19) e que o "desabafo" é um sadio escape quando se está farto de estupidez (Lc. 11.31-32). Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

Desse modo, não santificamos a Deus quando falamos o seu nome enquanto furtamo-nos à verdade e praticamos todas aquelas coisas que a Palavra de Deus decreta como abominações, ainda que disfarçados pela nossa pseudo-moralidade. Também não santificamos a Deus com a nossa teologia reducionista e domesticadora da divindade, que pretende reduzi-lo a dogmas, ritos, liturgias e espaços. Também não santificamos a Deus com a nossa noção de sermos secretários da divindade, achando que sabemos tudo sobre Ele, achando que discernimos toda a Sua vontade, como se tivéssemos todas As manhãs uma entrevista marcada com Ele, na qual nos mostrasse detalhadamente todos os caminhos da vida. Blasfema contra Deus quem não pode dizer como Paulo em Romanos 11:33-36, que ninguém jamais conheceu ou penetrou na totalidade dos seus caminhos. Blasfema contra Deus quem não se abriu para o ministério de Deus. Não santificamos a Deus quando todo o nosso interesse em relação a Ele é sermos "ajudados". Ofendemos a Deus não somente pela negação do Seu poder, mas também pela súplica egocêntrica. Não se santifica a Deus quando se estabelece um lugar para ele morar, caindo nas teologias pagãs do "lugar santo". Ora, lugares só são santos quando santificados pela presença de homens santos que cultuam ao Deus Santo. Não se santifica o nome de Deus, quando se viola a sua imagem e semelhança nos seres humanos que nos cercam. Não se santifica a Deus, onde os pequenos são apenas suportados e os grandes são preferidos. Não se santifica a Deus nas nossas ruas cheias de meninos nus e crus e, que perambulam como cães virando latas de lixo. Não se santifica a Deus quando a Igreja se toma um "bastião" do poder religioso, capaz de favorecer influências políticas mundanas e iníquas. Não se santifica a Deus quando nossa esposa não é santificada pelo nosso convívio e os nossos filhos e amigos não provam o bem fazejo resultado da nossa ligação com Deus.

2. A obra redentora de Jesus conforme relacionada ao tema da santidade: "E a favor deles eu me santifico a mim mesmo..." (v.19) A segunda ideia à qual o tema do Pai Santo e da santidade está relacionada em João 17 é a obra salvífica de Jesus. Isso porque a santificação que o Pai santo pede dos Seus filhos só pode ser vivida em Cristo. É por isso que Jesus, conquanto nos desafie concretamente à vivência da santidade, nos faz provisão espiritual para que tal santificação seja uma possibilidade. Sem tal provisão espiritual a vida cristã é simplesmente impossível. Talvez essa seja justamente a nossa principal falha histórica: tentar viver a santidade para a qual somos chamados, por nossa própria conta e meios. Talvez o mais terrível exemplo disso na atualidade esteja exatamente demonstrado na queda dramática e escandalosa de pregadores, cujos projetos teológicos e pessoais pregam comportamentos de santidade homocentrica. Ora, a única diferença entre legalismo e santidade é que o primeiro é esforço humano e o segundo é obra do Espírito.

Por que estou dizendo isso? Simplesmente para mostrar o que Jesus dissera quando afirmou que a "favor dos discípulos Ele se santificava a si mesmo", era muito mais do que poesia sacerdotal. De fato, tratava-se da mais fundamental afirmação de segurança espiritual que a Palavra de Deus nos oferece. É sabido por todos nós, que Jesus Cristo é a única provisão de Deus para a salvação humana. E na minha maneira de ver, salvação e santificação andam extremamente ligadas. Para entendermos o tema da santificação, precisamos entender primeiro o tema da salvação e aquilo a que ela está ligada.
Ora, Deus está redimindo hoje o espírito humano de modo forense e judicial, por causa da obra de Jesus na cruz. No entanto, tal salvação também traz consigo o anúncio das boas-novas de um processo redentivo, multidimensional, que Deus continua a realizar, atingindo variados segmentos da nossa própria vida. É isto que Paulo diz num texto que tem criado problemas na mente de muitos irmãos: "... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar segundo a sua vontade" (Fp. 2.13). O fato de a salvação precisar ser desenvolvida, não significa que ela tem de ser conquistada. Nós só desenvolvemos aquilo que temos, e nós temos a salvação, definitivamente, pela fé na Graça de Cristo. Tal salvação, precisa apenas expandir-se, corporificar-se e multidimensionar-se na existência humana. É também por isto que Paulo continua apresentando alguns exemplos básicos de como fazer a salvação “crescer”: "sem murmurações nem contendas". Ora, isto tem a ver com a nossa interioridade curada e com as relações que precisam ser reconciliadas para que, na História, nos tornemos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, e inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta”.
A salvação judicial e forense, por meio da fé em Jesus, deve desembocar num processo de humanização, tendo Jesus como protótipo, conforme diz Romanos 8.29 "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos". A salvação que se recebe pela fé, desse momento em diante, entra na fase de desenvoltura dentro de cada pessoa para quem Jesus é o Salvador, o projeto, o protótipo, a referência e o Mestre. Isto porque o plano de Deus é que esta salvação se multidimensione em cada um de nós, de modo a caminhar na direção de tornar cada pessoa "conforme a imagem de seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos", os quais são parecidos com Ele.
Assim é que, metafisicamente, aos olhos de Deus, nós somos uma obra acabada. Sua graça nos fez totais aos Seus olhos, de modo que judicial e forensemente estamos justificados. Mas historicamente falando, porém, veja o que Paulo diz em Filipenses 3.12,13: "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus". No versículo 16 diz ainda: “Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos”. O versículo 15 ele já havia dito: “Todos pois que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Os dois elementos (salvação-forense-judicial versus salvação-histórico-processual) estão presentes nestas citações.

Veja o que se diz acerca da salvação forense-judicial: "Nós que somos perfeitos" (v.15). Ora, tal afirmação só é possível em Cristo. Fora dele, nenhum de nós, inclusive Paulo, é imperfeito e inacabado.

Veja agora o que se diz sobre a salvação histórico-processual: “não tenho obtido a perfeição...mas prossigo para conquistar...todavia andemos de acordo com o que já alcançamos...” (v.12,13,16).

Assim é que, forense e judicialmente estamos perfeitos em Cristo.
Historicamente
, porém, estamos ainda a caminho, de modo que a justificação já realizada e acabada em Cristo não deve estagnar o processo histórico de continuidade de nossa salvação. Com relação a este último aspecto, Paulo utiliza em Filipenses três palavras e expressões processuais do tipo “prossigo”, “avançando”, “andemos”, “não alcancei”, e “tenho um alvo”. São palavras e expressões que nos colocam a caminho e que não permitem que a justificação se engesse no moralista religioso ou se apóie na graça barata.

Ainda em Filipenses 3, Paulo diz que a salvação, enquanto obra a ser desenvolvida, implica num processo histórico, pois tem relação com três tempos: passado, presente e futuro. Ele diz que as “coisas que para trás ficam”, para trás ficam; que as coisas do presente ao presente pertencem (“não que eu tenha alcançado”) e que as coisas do futuro, “diante de mim estão”. Ora, isto é precisamente o que compõe a História: presente, passado e futuro. Portanto, tal salvação-santificação tem que se desenvolver aqui, na História.

Paulo também afirma que este processo histórico pode ser chamado de processo de “cristificação”. Esse processo é dinâmico. Ele diz: “...não obtive, porém prossigo...”. Todos nós podemos alcançar tudo quanto Deus colocou à nossa disposição.

Ora, aqui neste ponto nós voltamos objetivamente ao tema da santificação, e com uma pergunta. Isto porque uma vez que os conceitos básicos relacionados com a salvação estão postos, nós devemos perguntar o que isso tem a ver com a nossa santificação. Não devemos nos esquecer de que em João 17, texto de nosso estudo, o Senhor Jesus disse que Ele mesmo se santificava a nosso favor. Ou seja: há algo da vicariedade de Jesus na nossa santificação também. É bom afirmar isto, pelo simples fato de que há muito legalismo com relação à perspectiva da santificação. Na maioria das vezes, a santificação tem sido entendida como sendo o “lado humano” da salvação. Ou seja: “Cristo nos salvou e cabe a nós tornarmo-nos dignos da salvação através da santificação”. No entanto, não há santificação possível que prescinda também da graça santificadora de Deus. Com isto não estou dizendo que a santificação não implica em compromissos éticos concretos na história. Se assim fosse, eu estaria negando tudo o que escrevi a respeito da necessidade das nossas vidas confirmarem a revelação da Palavra. Como diz Willian Barclay: “o cristianismo, como também o judaísmo, é essencialmente uma religião ética. Por isso se deve dizer que o cristianismo insiste que o ser humano deva viver um certo tipo de vida e ser um certo tipo de pessoa” (William Barclay; "The Mind of ST. Paul”, pág 75).

Do mesmo modo que o Novo Testamento ensina que a salvação é fruto da graça de Deus realizada e consumada em Jesus Cristo, ele nos ensina também que a realidade da santificação se alimenta da mesma fonte de eficácia espiritual: a Graça. A santificação resulta de uma vida que antes de tudo se viu morta em Jesus Cristo para o pecado (Rm. 6.11-14). Na realidade, a questão-chave da santificação se resume na expressão “estar em Cristo”. Estar em Cristo significa TUDO na vida cristã. Literalmente, não há qualquer progresso humano possível, fora desse estar “em Cristo”. Neste sentido, há uma diferença fundamental entre estar “em Cristo” e estar “na igreja”. Obviamente acredito que estar em Cristo significa também estar na IGREJA de Cristo. A questão, no entanto, é que a Igreja de Cristo se misturou com aquilo que nós chamamos de Cristandade. Foi precisamente nesse sentido que Santo Agostinho disse “que a igreja tem muitos aos quais Deus não tem e que Deus tem muitos aos quais a igreja não tem”. Para Santo Agostinho, a “igreja” não era necessariamente a IGREJA. Podia ser apenas uma deformação institucionalizada daquilo que Jesus sonhara.Isso porque, Santo Agostinho quanto nós, acreditamos que quem de fato está em Cristo está na IGREJA, e na comunhão da fé que a verdadeira Igreja promove e para a qual nos convida. No entanto, há aqueles que estão na IGREJA e que não conseguem “entrar nas igrejas”. Esses são cristãos, mas não suportam aquilo que nós chamamos de “cristianismo”.
Descrevendo esse afastamento do cristianismo em relação à IGREJA conforme exposta no Novo Testamento, Jacques Ellul afirma em “Subversion of Christianity” o momento histórico em que essa mudança teve e tem lugar. O momento é exatamente quando sai-se da perspectiva orgânico-qualitativa de igreja para a perspectiva organizacional-institucional (por exemplo, quando a comunidade da fé vira “ismo”). Nesse caso, é como se uma fonte de água viva fosse transformada em um canal de irrigação mais ou menos regulado e estagnado, até ao ponto em que a água da fonte original torna-se totalmente poluída na medida em que ela vai sendo “mecânica e artificialmente trabalhada” pelo sistema de distribuição.

De fato, o grande segredo da santificação, como já dissemos, é estar em Cristo e tendo sempre a coragem de verificar se estamos mesmo Nele (II Co. 13.5) Este é o princípio essencial à santificação e às demais virtudes da fé cristã. Do ponto de vista do Novo Testamento “em Cristo” nós temos:

1. Consolação: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria...” (Fp. 2.1,2).

2. Ousadia: “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém ” (Fm 8).

3. Liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir-nos a escravidão” (Gl. 2.4).

4. Vitória contra a mentira: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência” (Rm. 9.1).

5. Promessas: “...a saber que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef. 3.6).

6. O AMÉM de Deus à vida: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus, por nosso intermédio” (11 Co. 1.20).

7. Somos santificados: “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co. 12).

8. Somos sábios: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis” (Co. 4.10).

9. Somos novas criaturas: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (II Co. 5.17).

10. Somos chamados: "Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente o que foi chamado, sendo livre. é escravo de Cristo” (I Co. 7.22).

11. Temos o mais elevado objetivo: "Prossigo para o alvo, para o
prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp 3.14).

12. Apesar de tantas vezes sermos imaturos, somos salvos:"Eu. porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais. como a crianças em Cristo"(I Co. 3.1).

13. Estamos estabelecidos: "Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus" (11 Co. 1.21).

14. Podemos andar em vitória: "Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele" (Cl. 2.6).

Tudo isso parece simples demais para as mentes mais sofisticadas e teológicas, as quais, por certo, até "pularam" esta série de 14 afirmações decorrentes de se "estar em Cristo". No entanto, as coisas acima mencionadas são seríssimas. Se não veja: se elas são assim tão simples, por que há tão poucas evidências dessa santificação em nosso meio? Por que tanto pecado, imoralidade, roubo, mentira, descrença, administração iníqua dos bens da igreja por parte de líderes? Por que tanta traição, falsidade, calúnia, inveja e maldade? E mais: por que isso acontece tão intensamente dentro da igreja quanto acontece fora dela? E mais: por que os grupos cristãos mais legalistas são, tantas vezes, as mais desgraçadas vítimas desse fracasso?

Talvez tudo isso aconteça pela simples razão de que aquilo que o evangelho nos convida a ser tem íntima ligação com a Graça de Deus. E, nesse sentido, aquilo que o evangelho oferece é intolerável e inaceitável. Você julga que há alguma coisa aceitável na graça? Não! As pessoas não gostam da graça justamente porque a graça não lhes dá controle sobre a situação. A graça não depende de mim. Ela extrapola meu domínio. Não há nada de seguro no fato das pessoas condenadas à morte estarem livres dela porque um desconhecido e Estranho Soberano simplesmente as livrou disso, sem lhes dar qualquer razão justificável para tal ato. A graça é totalmente arbitrária: "Eu serei gracioso para quem Eu quiser ser gracioso e misericordioso para quem Eu quiser ser misericordioso..." Nesse caso não há nada que possamos fazer: não há sacrifícios, ritos, orações, atos de bondade, busca de sabedoria, ascetismo moral e religioso, etc. Nada pode ser feito para se ter controle sobre a graça. Não há trocas a serem feitas, e assim nos sentimos extremamente humilhados na nossa incapacidade de "justificar" a relação, pelo menos por um pouco. A graça exclui tudo aquilo que nos garante segurança. Nossos sacrifícios não são aceitos, nossos moralismos são ridicularizados, nossas liturgias são chamadas de cansativas, e nossas justiças próprias são chamadas de trapos de imundícia. Pode haver algo mais afrontoso para a natureza humana do que esse estado de absoluta impotência no qual a graça coloca a todos nós? Não! E por isso que o legalismo é o supremo ato de rebelião contra Deus. O legalismo é mais blasfemo do que o desconhecimento de Deus (Rm. 2.12-16). O sincretismo, o paganismo e a promiscuidade suscitaram menos a ira de Jesus do que o legalismo que lutava contra a graça. Todos nós ficamos possuídos por um desejo obcecante de justiça própria. Temos obcecante desejo por nos mostrar justos e retos. Nossa maior idolatria é aquela na qual nós mesmos somos os "nichos" e os “santos" do nosso culto moral. Nosso maior prêmio é sermos vistos como justos pela nossa comunidade. Ora, nesse sentido, nós, "religiosos", somos menos susceptíveis à graça de Deus do que as meretrizes e os pecadores da nossa sociedade? Eles já estão "como canas quebradas e como torcidas que fumegam" (Mt 12.20). Eles já perderam a chance de lutar pela sua justiça própria. Foi por isso que eles foram os mais receptivos à graça de Deus durante o ministério de Jesus.
Eu quero dizer que a única maneira de receber o beneficio da graça de Jesus que nos santifica é mediante a aceitação da nossa total incapacidade de justificar o que Deus fez e está fazendo em nós. Somente quando nossas armas estão completamente depostas é que o Espírito pode atuar em nós, a fim de nos fazer entrar no profundo processo da santificação. Cristo já fez tudo na Cruz. O que nos resta é exorcizar os demônios das nossas pretensões religiosas, a fim de sermos suficientemente simples para receber aquilo que só os humildes de espírito admitem: a graça de Deus.


Paginas 38 a 47 de ORAÇÃO PARA VIVER E MORRER, publicado em 1994; e escrito em 92; por Caio Fabio

Neurose de Santidade

Esta carta foi extraída do site www.caiofabio.net

Querido Caio, meu pastor,

Recebi tua resposta há alguns meses e desde então tenho tentado digeri-la—e mais: vivê-la! 

Só que como você mesmo nos ensina aqui, tudo é fácil quando não estamos vivendo, quando não estamos no olho do furacão. 

Daí porque eu re-alimento a questão (recalques, eu sei), perguntando: “Se a santidade vem de Deus e não do homem, por que eu me bato tanto (poderia ter escrito “me esmurro” também) pra conseguir me apropriar dela e pra conseguir ser santo e não ferir a Santidade de Deus?” 

Cara, você deve ter noção sim de como é horrível a gente estar em luta conosco mesmo a todo o momento. A luta de não querer, como se lê na Bíblia, entristecer o Espírito Santo... 

Cara, eu sinto nestes últimos dias que Ele simplesmente foi embora. Sumiu. Abandonou-me. Ou eu teria abandonado Ele? 

Nem sei se agora peço a sua ajuda. Só sei que pra mim tá difícil. São dias tristes em que a Graça parece passar à minha frente sem que eu consiga tomar posse dela... 

Tomar posse... 

Ah! Cara, eu tô de saco desse negócio de religião! De ficar repetindo palavras do tipo "o meu casamento é o melhor!"... etc... etc ... etc..., como se pela repetição a gente fosse se apropriar de algo... 

Pode até ser que sim, que alguém se aproprie, mas fica por ali um cheiro de maracutaia. 

Mas, ao mesmo tempo, eu leio o último texto publicado hoje (26.08) da resposta ao nervoso rapaz chamado de fariseu, e encontro na fala dele, aqui e ali algo que me chama. Algo de religioso que sussurra aos meus ouvidos: "Vem, vem...". 

Taí, desculpa Caio, sou mais uma alma infeliz e conturbada a te escrever... 

Caio, nosso pastor amado. 

Caio, aquele que se entristece com o nosso não-entendimento. 

Mas saiba, eu tento. Eu tento. 

Serei mais um daqueles que apenas foram chamados? 

E ainda por cima me colocam pra tocar lá na frente todo domingo. E tomar conta de células. Tomar conta e “trabalhar” com os jovens...

Com quem além de você eu posso me abrir? 

Ore por mim, eu te peço. 

Um forte abraço, 

Aquele cara que tinha escrito sobre não querer “pacotes pré-fabricados”, mas que, às vezes, inveja aqueles que compram e seguem o “coro dos contentes”. 

Cara, eu só quero a PAZ, nada mais. Onde ela está? 


PS: Caio, eu te escrevi as linhas aí em cima no dia 26.08, e retransmito como você pediu que fizéssemos, já que tudo sumiu do teu lap. Abuso da tua paciência e encaminho outro pedido de socorro, digamos assim, que está publicado no meu blog e que retrata ainda mais a minha condição hoje com Deus. Condição? Que coisa mais esquisita esta que eu escrevi... Ato falho? 

Eis o texto: 

"O grito" 

Em dias assim eu queria ser um pássaro. Um bicho qualquer - menos barata, que abomino -, mas um bicho que não pensasse em nada. Um ser assim inóspito, suficiente na sua limitação animal. Digo isto porque faz três dias que voltei a tomar meu remédio à base de clonazepan, a fim de que eu consiga suportar minha existência. 

Tudo veio do nada. Eu voltava de viagem e minha esposa me deu uma palavra dura—que noutro tempo nem poderia ser dura—, e eu fui esvaziando como aquelas bexigas de festa que depois de cortado o bolo vão perdendo a graça. 

Tomei 20, depois mais 10, depois mais não sei quantas gotas e agora estou aqui, debruçado sobre este teclado, pedindo socorro. 

A quem? 

A mim mesmo, talvez. 

É nestas horas, eu mesmo já preguei sobre isto na igreja, que tudo deveria fazer sentido em Cristo. 

É nestas horas que a gente deveria sentir aquela alegria que os Evangelhos dizem vir do Senhor. 

Mas eu não a sinto. 

Resta aqui dentro um vazio imenso.

Enorme. De dar medo. 

Seja qual for seu credo—mesmo que nenhum—, ore por mim. Estou mal. 

Rik. 
(15.09.03)


Resposta:
Meu querido irmão Rik: Paz e Descanso!

O modo como a “santidade” foi compreendida pela maioria da cristandade é algo que, se praticado, enlouquece qualquer pessoa.

Temos dois mil anos de “histórias de santidade cristã” que são atestados de enfermidade e conturbação mental.

Se a tal idéia de “santidade”, conforme ensinada pela religião cristã, fosse verdadeira, saiba, faria bem, e não mal.

Onde estão os santos felizes da Cristandade?

Não há nada que seja de Deus e faça mal à alma!

De fato, toda ênfase em santidade parte de dois pressupostos, no meio cristão:

1. Santidade como esforço humano de controlar os instintos e as manifestações de egoísmo. Obviamente que apenas o “instinto” (especialmente o instinto sexual) é que carrega a fama de ser o diabo da santidade. O Catolicismo histórico e o Arminianismo virtuoso, ambos estão cheios disso. E saiba, quando se trata de santidade, até os reformados e Calvinistas são Arminianos. Trata-se do “livre arbítrio” como Lei, o que gera toda essa responsabilidade neurótica na moçada.

2. Santidade como “pagamento cristão” pela suposta “Graça da salvação”. Ora, já houve quem dissesse, entre os Reformadores, queem Cristo Deus nos salva da Lei para nos justificar, e, depois, nos devolve à Lei, para nos santificar. Até os Reformadores acabaram, na prática, caindo nesse engano.

Ora, no primeiro caso temos esses dois mil anos de doenças cristãs que tantas trevas trouxeram à história da espiritualidade cristã, salvo algumas exceções. Já o segundo caso, ainda carrega em si mesmo a incapacidade de levar as implicações da fé em Cristo, e o Escândalo da Cruz, até às últimas conseqüências.

Meu amigo, infelizmente, mas tenho que lhe dizer que se você não desistir de vez de ambos os pacotes, você estará fadado a viver em angústias de alma para o resto da vida.

Você disse que desejaria ser um ser não pensante. E você afirmou isto apenas porque você pensa no assunto o dia todo. Ora, nesse sentido você é um homem “pensante”. Assim, é claro que você não suporta mais não ser um homem “pensante”. Todavia, de fato, seu problema não é ser pensante, mas apenas um ser fixado, neuroticamente, na idéia da santidade como conquista de Deus e de Sua intimidade. Na realidade você está “doente de santidade”. E saiba: você não está só. 

É bem verdade que hoje em dia as pessoas já não sofrem tanto com o pecado na perspectiva propositiva de vencê-lo para serem santos; antes pelo contrário; a maioria sofre o pecado como culpa negativa, e apenas em razão de que temem a “maldição de Deus”.

Você não falou o que o perturba, gerando esse sentimento de impotência, chegando mesmo a questionar se você é um dos “muitos chamados” que, eventualmente, não estão entre os “escolhidos”. 

Isto sim revela o grau de sua perturbação e a gravidade de sua “condição”.

De fato, meu amigo, não estamos aqui falando de Deus, mas apenas de você. Aliás, sua carta e tudo o que você sente nada têm a ver com Deus, mas apenas com sua construção psicológica de “Deus”; sendo, portanto, uma questão de natureza psicológica, e não espiritual.

Se eu perguntasse agora a você quais são esses elementos de perturbação ao seu alvo de “santidade”, sem temer ser precipitado, sei que você me diria que possivelmente 90% de suas agonias prendam-se ao tema da lascívia e dos instintos chamados animais. 

Ou seja: dificilmente sua perturbação acontece porque você queira crescer em amor e esperança (verdadeira santidade), mas sim porque você luta contra desejos estranhos, vontades de olhar o belo, de contemplar o que lhe agrada os olhos, de possuir o que você nunca teve, de expandir seus horizontes de experiências variadas, de cobiça, de pulsões sexuais fortes, e nem sempre focadas na sua companheira, e de muita aflição neurótica por se julgar um ser sujo e desprezível por não fazer o bem que prefere (dentro de você), mas sim o mal que você detesta (dentro de você).

Ou seja: sua alma está cativa de Romanos Sete, e não conseguiu andar e mergulhar em Romanos Oito.

O
ra, o que é santidade?


Primeiro, quero que você saiba que santidade acontece como algo exatamente igual ao princípio da justificação pela fé. Paulo diz que em Cristo nós não apenas recebemos a justiça-justificadora de Deus, mas também a santidade e a sabedoria (Tiago diz que a sabedoria vem da fé). Ou seja: pela fé em Cristo eu sou-estou tão salvo quanto sou também santo. E, isto, meu amigo, é o que é santidade para Deus. Para Deus, ser santo é estar sob a Graça Justificadora, em plena certeza de fé, e descansando completamente na obra da Cruz.

Um exemplo do que lhe digo é a introdução da carta de Paulo aos Coríntios. Eles são tratados como “santos”, mas o fluir da carta mostra que eles eram “apenas” santos em Cristo, posto que não haviam ainda caminhado na vereda da pacificação do ser, na Graça. Essa era a razão de viverem em disputas, ciúmes, invejas, facções e perversões, até de natureza sexual, como foi o caso do homem que possuiu a mulher do próprio pai. No entanto, esses doentes na história e na existência, eram (são) santos em razão de que a Graça realizou em Cristo a santidade da qual eles ainda não haviam se apropriado como bem pessoal nesta existência.

Meu irmão, o santo é o pecador que não tem justiça própria e que confia sem reservas no que Jesus fez em seu favor!

Paradoxalmente, o caminho da santidade é um caminho de esvaziamento da justiça própria, de tal modo, que o verdadeiro santo nem se preocupa com santidade.

Quanto mais alguém se preocupar com santidade, menos santo será

O verdadeiro santo crê que Jesus se santificou por ele, conforme Jesus disse: “Eu mesmo me santifico por vós”.

A desgraça toda é que no cristianismo a santidade virou um concurso de mortificações neuróticas, e de busca de amestramento da alma aos padrões da moral religiosa, ou seja: da Lei.

Ora, assim como sob a Lei ninguém é justificado, do mesmo modo, sob a Lei ninguém é santificado.

A Lei exacerba as culpas e neurotiza o ser!

O verdadeiro santo se sabe não-santo. E não se angustia com o fato de sua imperfeição histórica, visto que ele sabe que a vida na Terra é um processo, e que ele ainda não alcançou, em si mesmo, tudo aquilo que ele já sabe que em Cristo é seu.

Assim, esquecendo das coisas que para trás ficam... ele prossegue para o alvo. No entanto, enquanto confessa a sua imperfeição, ele mesmo, conforme Paulo escrevendo aos Filipenses, diz que “já é perfeito”; embora também diga: “Não que eu tenha já alcançado a perfeição...”.

Paradoxo!

Insisto o tempo todo nisto: quem não entende o paradoxo de que tudo já está feito e consumado para Deus e em Deus, embora ainda não esteja plenificado no homem, não terá descanso e nem paz, jamais.

Estranhamente, porém coerentemente com a verdade do Evangelho, o indivíduo só começa, espiritualmente, a ser alguma coisa, justamente quando morre para a pretensão de ser aquela coisa.

Para ser santo o cara tem que morrer para a pretensão da santidade!

Ora, isto faz também total sentido psicológico, posto que enquanto a pessoa luta contra suas pulsões, mais elas crescem; equando ela as trata sem os rigores neuróticos da moral, então, ela começa a se ver livre de seu mal.

E tem mais: uma mente nervosa e angustiada pela neurose da santidade ou da culpa não consegue tirar proveito espiritual de nada. De fato, para tal pessoa não há benefícios a serem usufruídos, posto que ela não crê no Evangelho.

Isto porque, meu amigo amado, o Evangelho não é apenas uma história. O Evangelho é o benefício da história. É Boa Nova. Não uma Nova Desgraçada. 

Muita gente diz que crê no Evangelho apenas porque acredita nas histórias do Evangelho, e porque acredita que Jesus é o salvador de todos os homens. Todavia, isto é apenas, ainda, algo para se acreditar, pois é apenas a certeza de que um certo evento histórico aconteceu. Ora, isto está longe, muito longe de ser tudo.

Ora, tais pessoas crêem na Crucificação, mas não crêem na Cruz. Crêem na Ressurreição como fato histórico (orgulhosos, dizem: “A tumba está vazia!”), mas não crêem no benefício da Ressurreiçãoposto que não dizem: “Estou absolutamente justificado!”

Conhecer a Jesus segundo a carne é acreditar apenas nas ocorrências do Evangelho, visto que são inegáveis. No entanto, conhecer a Jesus no espírito é usufruir o bem realizado por Ele em nosso favor, conforme o Evangelho.

Bem, é aqui que o bicho pega!

Isto porque para se usufruir tais benefícios, o sujeito tem que desistir de agradar a Deus por conta própria

É muita pretensão minha acreditar que eu tenho o poder de me santificar para Deus a fim de agradá-lo!

Todo verdadeiro desejo de “lhe ser agradável”, conforme Paulo, acontece no sentido oposto à compreensão dessa tal santidade neurótica e presunçosa. 

Nós entendemos que para ser agradáveis a Deus nós temos que satisfazer a Deus com nossa perfeição. Para Paulo, Deus só é agradado em Cristo, e para agradá-lo, tem-se que abandonar todas as nossas justiças próprias e mergulhar na paz que vem da fé, de modo completamente descansado, a fim de receber a misericórdia.

Paulo chega mesmo a exagerar a parábola dos “Trabalhadores da Última Hora”, aqueles que chegaram no fim e ganharam o mesmo que os que haviam trabalhado o dia todo. Paulo vai além. Para ele (Romanos Quatro), a situação ainda era mais “escandalosa”. Era como o cara que não trabalhou, mas, assim mesmo, com “santa cara de pau” fundada na fé na Graça de Deus e na justiça de Cristo, apresenta-se a fim de receber o Salário da Vida.

Agora, deixo com você algumas coisas práticas.

1. Você tem instintos, e sempre os terá. Eles apenas se acalmarão, seja pelo tempo, seja pela sua entrega a Cristo, hoje, mediante o fazer morrer de sua justiça própria. Nada revela mais arrogantemente a nossa “natureza terrena” que a justiça própria. Portanto, não se aflija com seus instintos. Tudo o que o instinto animal deseja é “combate”. Lembre: trata-se de um animal. Oprima-o, e ele o atacará. Deixe-o em paz e ele saíra e entrará na floresta. Assim, não combata seus instintos, mas apenas brinque com eles. Diga: “Pô, cara, cê tá maus!” Faça isto com bom humor com você mesmo e com Deus. Ora, estranhamente, você verá que essa santa tranqüilidade vem da certeza de que aquilo só é um incômodo para você, mas não mais um problema entre você e Deus. E, assim, paradoxalmente, a coisa toda se esfria de repente...

2. Sua mente já está chegando perto da Graça, mas sua alma ainda está presa ao espírito neurótico da religião. No entanto, saiba: Deus não está zangado com você. Se eu pudesse falar por Ele, eu apenas diria que Ele se “entristece” com o fato de que você não confia, para o seu próprio bem, que Deus já se reconciliou com os homens. Ou seja: É como se Deus dissesse: “Que pena. Está tudo feito e consumado, mas o Rik ainda quer me dar uma ‘mãozinha’, sem saber que esta ‘mãozinha’ é aquilo que o impede de receber o que Eu já fiz”.

3. A cada dia eu vejo como o diabo está mais presente nesses processos cristãos de angústia culposa e neurótica do que as pessoas pensam. Paulo diz que o que despoja os principados e potestades é a certeza de que o escrito de dívidas que havia contra nós foi INTEIRAMENTE REMOVIDO E ENCRAVADO NA CRUZ. Ora, enquanto não se descansa nisto, não há paz que nos seja possível. Digo isto especialmente porque nós somos o povo que trata a Lei de Moisés de um modo herético, visto que, em Jesus, tal Lei morreu, e não aceitar isso é como transar com defunto. A heresia cristã mais contínua é esse culto à Lei e esse casamento com Moisés. Sim, a maioria dos cristãos vive em estado de bigamia espiritual e praticando necrofilia espiritual, confessando a Jesus como “caso de amor”, mas sem deixar de manter o casamento com o defunto Moisés. Em Romanos Sete, Paulo diz que a Lei morreu em Cristo a fim de que possamos contrair novas núpcias com Deus, não mais sob a Lei, mas conforme a Lei da Graça, em Cristo.

4. Ainda que para uma pessoa em estado de neurose religiosa crer em tudo isto pareça uma irresponsabilidade espiritual, todavia, eu lhe digo que só haverá benefício para a sua alma se você deixar a Lei morrer em seu coração a fim de que a Lei da Graça possa criar uma consciência pacificada em você.


Meu irmão, morte é morte! 

Quando Jesus diz que o discípulo tem que negar a si mesmo, tomar a cruz e segui-Lo, saiba: Ele estava falando de negar o “si-mesmo” (que é negar a sua justiça própria), tomar a cruz (que é crer na Cruz, contra os impulsos do zumbi da Lei), e segui-Lo (que é andar conforme a fé que nos garante que Tudo Já Está Feito!)

E quanto a isto, não tenho qualquer dúvida, visto que experimento os benefícios dessa paz todos os dias, especialmente naqueles dias e horas em que minhas contradições pessoais querem se levantar chamando Moisés para a cama da minha alma.

Moisés não sobe na minha cama. Sou casado com Jesus. Não há lugar para Jesus e Moisés na minha alma. Meu coração é só de Jesus. E Moisés é apenas um irmão de uma determinada hora, mas que está longe, infinitamente longe, de poder ser o pacificador de minha alma.

A Cruz removeu todas as conseqüências do pecado, diante de Deus, para todo aquele que crê que Jesus é Suficiente!

Significa que não peco mais? Ora, nem de longe. Eu sou o principal dos pecadores; justamente por isso, também sou o mais certo do benefício da Cruz em meu favor.

E mais: no início de minha caminhada de fé, quando santidade para mim ainda era um exercício na Lei, minha mente era infinitamente mais aflita do que hoje, quando não tenho nenhuma justiça própria, e, em razão disso, também não sofro de nenhuma neurose culposa.

Eu só me glorio na Cruz!

Na pratica, o que acontece é que essa desmobilização de energias psíquico-espirituais que ficam a serviço da Lei, quando liberadas para o bem, cria forças tranqüilas em nós, e que nos possibilitam caminhar vendo no nosso equívoco, ou pulsão interior inadequada, ou mesmo em ações impróprias, coisas que eu identifico em mim, mas o faço a meu favor, não como quem se odeia por isso, mas como quem agradece a Deus que tais coisas já não impedem meu caminho com EleEntão, paradoxalmente, tudo desvanece, e os instintos e pulsões se acalmam, visto que não mais os alimento com culpa. A culpa deu lugar à consciência pacificada.

Faça o exercício de deixar tudo como está, sem dar nenhuma bola para nada—nem para o pior sentimento, desejo, instinto ou pulsão interior—, e você verá como isso vai se dissolver, lentamente, até que você não mais terá conversas com o diabo disfarçado de santidade.

O que você tem que fazer?

Ora, de preferência, NADA!

Nada é o que você tem que fazer!

O que pode ser feito pela culpa já está feito por Jesus.

O que lhe falta é crer!

Agora, então, saiba: acabou o tempo de “acreditar” em Jesus, e começou o tempo de crer e confiar em Jesus.

O Jesus
 para se “acreditar” é um Chefe Religioso. Mas o Jesus no qual se crê e se confia é o Deus que tudo realizou em nosso favor. E não apenas há dois mil anos, mas antes mesmo da Fundação do mundo.

Ninguém jamais foi justificado pelas obras da Lei; nem mesmo Moisés. Todos os que são e foram justificados em toda a Terra, o foram porque o Cordeiro foi imolado antes da fundação de todas as coisas.

Meu irmão, crer ou não crer, eis a questão!

Receba meu beijo e minhas orações!


NEle, em quem você é santo,


Caio

PS: Veja também se seu problema não é outro; por exemplo, insatisfação com sua vida, seu casamento, e seus papéis eclesiásticos. Às vezes o cara chama de falta de santidade aquilo que na verdade é apenas infelicidade não confessada.

(Carta respondida em 07/10/2004)